O segundo dia de actividade de Sanabria perspectivava-se mais trabalhoso. Como foi descrito em artigo anterior, no primeiro dia estivemos a fazer o Canhão do Rio Terá que deu bastante trabalho, especialmente se nos recordarmos das travessias do rio.Neste dia o grupo tinha como objectivo fazer o percurso denominado como Canhão do Forcadura que, efectivamente, é muito mais extenso que somente o trajecto real que compreende este canhão.

A primeira parte do percurso é muito simples, indo nós por um caminho muito bem marcado e sempre com o rio à nossa esquerda. Mas, após o atravessarmos, já perto do planalto, o caso muda de figura, o percurso deixa de ser evidente desaparecendo a indicação de caminho a seguir.

No planalto encontramos uma teia de potenciais caminhos que nunca temos a certeza de o serem.
É aqui que os conhecimentos de orientação começam a fazer a diferença, especialmente se os temos, ou não, e se temos a certeza de saber o que estamos a fazer.
Cuidado … ter a certeza não implica estar a fazer correctamente o que temos de fazer e é neste contexto que podem ser cometidos “excelentes” erros.

Já no planalto, chega o momento de deixar o caminho evidente e seguir o caminho que na noite anterior o grupo havia marcado no mapa para ser percorrido.
Param, falam, discutem, surgem as primeiras birras, são resolvidas e seguem caminho … continuam a acertar. É um bom grupo em termos de orientação.

As conversas sucedem-se mas a audição selectiva não funciona na totalidade, não é ouvida uma “pequena” alteração necessária ao objectivo global e que faz com que sejamos levados a atravessar o rio para a outra margem.
Felizmente, por estas paragens o rio Forcadura ainda é estreito e dá-nos muitos pontos possíveis de o atravessarmos.

A experiência de atravessar rios do dia anterior ainda está muito presente no espírito de todos, o que faz com que a prudência tome lugar perante a razoabilidade. Conclusão: ninguém consegue ver os pontos mais óbvios de passagem e procuram a máxima facilidade que, obviamente, não encontram.
Mas, de espírito mais leve a este respeito, o nosso “Penetra” não compreende a actuação do grupo e, com ar displicente e mãos nos bolsos, automaticamente detecta a passagem e … simplesmente passa.
Meus senhores e minhas senhoras … o homem só faltou ser sovado … a inveja é coisa mesmo feia.
(resta dizer que o Sr Penetra não esteve na actividade do dia anterior onde passámos duas experiências “traumatizantes” onde tivemos de atravessar o enérgico rio Tera)

Os resultados da surdez selectiva não se fizeram esperar e um pouco mais adiante tivemos de voltar a passar o rio para o lado de onde tínhamos saído.
Adivinhem quem voltou a encontrar a melhor passagem e o voltou a fazer de mãos nos bolsos?
Adivinharam … V.Exª o Sr. Penetra.
Se alguns de vós estão a pensar que foi só a repetição consecutiva de um acaso … pensem bem … pois a isto se costuma dar outro nome.
O nosso objectivo passou a ser encontrar o refúgio que aí existe e se dá pelo nome de Chanza de la Mayada e que o encontrámos a 45 minutos de caminho.

É um refúgio não guardado, muito asseado e espectacular para bivacar uma noite ou duas.
Aproveitámos a passagem por este refúgio para retemperar forças, comendo a nossa merenda e redefinir objectivos visto que tendo perdido algum tempo de manhã, não tínhamos agora possibilidade de completar o percurso que havíamos marcado.
Abandonámos a ideia de passar pela Lagoa das Salinas e decidimos ir dali directamente para a Lagoa das Éguas.
Isso fazia com que tivéssemos de vencer um desnível de cerca de 300m por uma pendente muito inclinada.
Nesta subida os menos preparados fisicamente acusaram o esforço e fizeram as consequentes promessas de regresso ao ginásio.

Perdoem-me as comparações mas estas decisões são como algumas promessas de almofada … vãs.
A visão da Lagoa das Éguas e a descida que teríamos de efectuar até à Lagoa dos Peixes aliviou de imediato o cansaço.
De modo a que a equipa possa ir controlando o seu desempenho em termos de orientação, de hora em hora a equipa vai tendo que dizer onde está e compara com o que o GPS indica e dessa maneira esta equipa vai dando excelentes provas de uma perfeita orientação, cumprindo os tempos e sabendo com exactidão onde se encontram a cada momento.
Os objectivos de orientação e planeamento de actividade estavam cumpridos na íntegra e a sugestão de terminar a actividade no Lago dos Peixes foi aceite de imediato.
De entre os vários grupos que já passaram pelo PFA (Percurso Formativo em Alpinismo), este foi, sem margem de dúvida, o que cumpriu os objectivos com maior grau de sucesso.
Todos ficámos com pena de não termos encontrado neve mas sobre isso nada podíamos fazer.

Foi um dia muitíssimo tranquilo de paisagens amplas, do género de paisagens que nos relaxam.
Ao ver o grupo já começo a imaginar como será a actividade de Bejar. Aí sim já com neve, muita neve, vertentes geladas e um rapel suspenso que fará a delícia dos participantes.
Até lá, um bem-haja,
David Monteiro
PS: Obrigado André pelas tuas fotos excepcionais.
































