Domingo, Novembro 18, 2007

Pena, Serra de São Macário, Setembro 2007

Do alto do penedo onde subi distingue-se o casario da aldeia da Pena que parece ter sido esculpida na encosta da serra.

“Daqui não se vai para lado nenhum” é a imediata ideia que me assalta ao ver a aldeia prisioneira das altas encostas que a rodeiam e de onde só à força da vontade, ou com ainda maior necessidade, se transpõem amiúde.

A imaginação corre livremente pelo vale à minha frente e o olhar repousa em Covas do Rio que, pelo isolamento, também se destaca na serra.

Consigo perceber que entre estas duas aldeias há um vale onde deve estar o caminho que procuro. Mas, caramba, o desnível é considerável.

Bom … considerável para mim que sou um menino da cidade, porque, como vim a saber mais ao final do dia, havia quem com tenra idade o percorresse diariamente.

Ao chegar a Pena não me surpreende o restaurante onde entro e me refastelo com uma fatia de bolo chocolate sem pátria, daqueles com cobertura de chocolate e nozes.

Desde o início da estrada da estrada que liga esta aldeia ao resto do mundo, cruzei com alguns carros que deixavam o local. Em muitos quilómetros que faço nestas viagens, alguns em condições deploráveis de mau tempo ou mau estado das estradas, vou seleccionando algumas para o Livro das Mais difíceis, esta constará com pompa e circunstância pelo estreio que é.

Nesta estrada a dificuldade em se cruzarem dois carros escreve-se com “D” grande e em alguns pontos do percurso torna-se mais apropriado o ”I” de impossível.

Mas, como dizia, não me surpreendeu a existência do restaurante pelo trânsito que encontrei na estrada, afinal só uma “casa de pasto” dá assim tanta vida a um local inóspito neste nosso maravilhoso mas mal conhecido país.

O caminho que parte da aldeia não é evidente mas, mais uma vez, a persistência deu os seus frutos e venceu barreiras.

Andar na Serra da Freita, ou nas suas redondezas, neste caso Serra de São Macário, é ter a certeza de voltar para casa com o coração cheio de paisagens de enternecer almas empedernidas, sair do mundo urbano, como o que habito, e deixar-se levar por uma máquina do tempo para paisagens que julgamos já não serem do nosso tempo.

Este vale parece ter sido feito por um gigante que teimou em separar duas grandes massas rochosas e dessa forma deixar passar a água que escorria das encostas rochosas.

No vale corre um ruidoso ribeiro cuja origem não consigo compreender mas ali está formando cascatas impressionantes, é o Ribeiro de Pena.

O caminho batido e as pedras gastas dizem-nos que este é o caminho que outrora uniria os povos destes lugares.

Não me surpreende a frondosa vegetação que cresce a partir das margens do ribeiro, a água cria vida à sua passagem com a mesma força que noutras alturas a destrói.

Quando, do alto do penedo, vi este vale, era como um língua verde que se estende num manto cinza escuro de pedra árida.

À minha volta tudo é vida ruidosa, até os sacanas dos mosquitos que não me largam. Os danados dos bichos infernizam-me o juízo até à exaustão.

Apareceram de repente e da mesma forma deixaram de existir, compreendi que, por qualquer razão que desconheço, se confinaram a uns 200m de percurso.

De repente o caminho guina para a direita afastando-se do curso do ribeiro. Confesso que por momentos fiquei desiludido, eu que gosto tanto de percursos que se desenvolvem nas margens de rios e ribeiros tinha encontrado um que por pouco não era perfeito, faltavam ainda uns 2 km’s para a Covas do Rio.

Um pequeno corrimão de ferro aparece na horizontal lá bem ao longe. A visão insólita revela uma ponte ligeiramente elevada relativamente ao resto do terreno.

É necessário subir uns degraus para passar a dita ponte.

Entendo então que o caminho não só se afastara do outro ribeiro como nos coloca a jeito para atravessar o Ribeiro de Covas do Rio que a contar pelo ar desarrumado do local, quando aqui corre água deve ser um espectáculo imponente.

Ao passar a ponte estamos finalmente a entrar nos domínios de Covas do Rio.

Ao contrário de Pena, aqui não há nenhum restaurante. D. Dulce, que aproveitou a boleia da nossa passagem, diz que não há nenhum café ou venda … aqui não há carros que se acotovelam para entrar e sair, só um rapazola de uns 12 anos de idade que não parece ter companheiro de aventuras, para além do acesso à Internet.

O calor que fazia pouco deixava reconhecer o mês de Setembro e o sonho frustrado que acalentei durante a parte final do percurso não podia ser realizado … não havia um danado de um café para beber uma cervejola bem fresca.

D. Dulce acompanha-nos no regresso, não por muito tempo mas o suficiente para contar o quanto o desenvolvimento de Pena afastou as gentes dos dois povoados, “antigamente percorria-se este caminho todos os dias para ir a Pena e eles para virem aqui a baixo”, “hoje já não vamos lá tanto … eles também nunca cá aparecem”.

O regresso convida ao banho mas, apesar do calor, a água é simplesmente gelada. Além do mais, a maior parte do percurso encontra-se sob a sombra das árvores o que torna este caminho ideal para ser feito em pleno Verão.

Ao chegar a Pena olho o local e sinto que efectivamente é local para voltar.

David Monteiro