Creio que é uma das questões que, para além da falta de aptidão, me separam de um escritor profissional: a falta de disciplina.
Efectivamente só escrevo quando me apetece.
Se escrevendo só quando supostamente estou inspirado o resultado é o que se vê que “bela” coisa sairá quando o farei sem estar. Por outro lado, hoje em dia assiste-se a cada desgraça literária que a minha só pode passar despercebida, aguardando que os anos me possam trazer o que a falta deles seguramente não me deu.
Recordo-me do nosso Jantar de Natal.
Queria fazer algo que tivesse a ver com as nossas actividades mas que também conjugasse algo diferente, talvez uma proposta cultural.
Depois de alguma discussão com os compinchas habituais, lancei uma proposta que incluiu um passeio pedestre, o jantar, encenação teatral e música ao vivo.
Como não possível fazer um passeio pedestre que seja ao mesmo tempo duro, desafiante, tranquilo e light, o grupo dividiu-se em dois grupos: uma para andar de bicicleta e outro para passear a pé.
Na voltinha de bicicleta um novo cromo: o Jaime.
Com a sua careca luzidia e olhar esbugalhado, venceu o “cai de costas” sem apelo nem agravo, deixando-nos para trás, todos a comer poeira.
Já na recta final, os dois grupos encontraram-se para terminarem juntos a etapa activa do evento.
Felizmente esteve um dia fantástico, com um sol lindo, como se pode ver nas fotos, mas o final do dia trouxe aquele friozinho característico dos dias de Dezembro e começou a apetecer um chá.
Como o nosso jantar seria no Grupo de Teatro O Bando, ali perto há uma casa de chá que veio mesmo a calhar.
A dimensão do grupo foi suficiente para monopolizar o local.
Rapidamente começaram as conversas que metade não as posso contar e outra metade parecem retiradas de um filme de Woody Allen.
Pensei que tinha chegado o momento de eu beber o dito chá e aceitei a sugestão da senhora que me falou de um chá de ervas aromáticas com um nome que não consigo repetir.
O amigo Carlos, dono do famoso “coiso não descascado que ainda não mostrou a ninguém”, teve a amabilidade de se apoderar da chávena a que ainda cheguei a estender a mão mas sem sucesso.
Bom … “Pediste chá?”, perguntei eu, pergunta à qual tive um “Não” como resposta que me deixou a pensar durante uns segundos face ao riso geral.
Como é habitual, sucedem-se as conversas sobre as actividades anteriores e o riso instala-se, tal é o número das situações hilariantes.
Olho as várias mesas como se fossem ilhas que comunicam entre si por “trocas de mimos” e gargalhadas. Estas ilhas são habitadas por quem não se resume ao isolamento mas progride na troca de experiências e nas histórias que constroem em conjunto.
A hora do jantar vai-se aproximando e o caminho que nos separa do grande espaço do Bando é feito já às escuras.
No espaço do Bando, as mesas já estão a postos. Uma magnífica salamandra estrategicamente plantado no centro da sala faz o ambiente ficar muito acolhedor e recebe a visita de uma grande número de convivas dispostos a aquecer as mão enregeladas pelo frio exterior.
O jantar não se conseguiu esconder, foi de imediato denunciado ao pelo cheiro que nos fez salivar.
Vingamo-nos nos aperitivos que em número não resistem aos dedos comilões que os agarram e os levam às bocas que entretanto param de tagarelar.
Mas, não são uns croquetes que calam este pessoal.
Foi necessário a Suzana Branco entrar em acção e começar a fazer-se ouvir.
“Vamos soltar o pinguim”, erro o nome da encenação.
Uma performance teatral que apela à exteriorização do pinguim gelado que cada um de nós, a certo momento, engoliu.
Bom … pelo grupo que via à minha volta perguntava-me se ainda teria resistido algum pinguim … sim … talvez uns quantos.
As sucessivas transformações da Suzana evocam vários personagens que encerramos em cada um de nós. Uns com mais dificuldade de sair contrastam com outros que dificilmente escondemos.
Mas inevitavelmente chega sempre o momento em que as nossas vidas tocam vidas alheias tal como foi o convite de darmos pudim ao vizinho do lado e deixar que outro nos desse um pouco de arroz doce ou mousse de chocolate.
Uns alinham e outros mantêm-se nas suas ilhas isoladas cuja comunicação mostram indesejável com as ilhas vizinhas.
É esta pluralidade que constitui a maravilha da diversidade deste grupo.
Sinto uma imensa felicidade pelos sorrisos e gargalhadas que se vão multiplicando.
Entretanto, entra a vez do Pedro de mostrar o que vale.
Alguns temas já são clássicos e aconchegam-nos a alma como casas que há muito habitamos. Melodias que nos unem e coloram histórias que são parte do imaginário colectivo.
Mal sabia o Pedro que a sua perícia iria ser posta à prova pelas contravozes que se instalaram, brincando com a letra de músicas antes repetidas.
Grande Pedro, chegaste a vacilar J ou o couro não tivesse tido a grande performance que teve.
Mas como bom animador, o Pedro ripostou e colocou todos alegremente a fazer figura de tontos com uma coreografia fatela, à qual naturalmente aderi.
Mas tal foi a adesão que o bis saltou, as meninas dançaram e animaram.
Quando pensámos que o dia tinha chegado ao fim, ainda nos restava mais uma surpresa: alguém se revelou fadista … Srs, e que fadista …
A nossa amiga Flora monopolizou e encantou os olhares, conquistando o silêncio e a admiração de quem a ouviu.
Vermelha que nem um tomate lá foi dizendo que há muito não cantava nem tocava mas deu-nos a honra de partilhar connosco um excelente momento.
Se a verdadeira riqueza está nos momentos de vida que partilhamos com quem gostamos, então este foi para mim um farto jantar.
São jóias que vamos guardando ao longo do tempo e que fazem parte do espólio colectivo.
Espero que este momento tenha contribuído para um Feliz Natal.
Bem hajam,
David Monteiro


