O frenesi só acalmou quando calcei as botas e voltei a pisar a neve. Há vários meses que não o fazia e já tinha aquele bicho a roer.
Nos dias anteriores, a incerteza de vir a dias nevados já me estava a deixar maluco, ainda por cima cada vez que falava com alguém a pergunta malandra saltava como uma mola: “Achas que vai haver neve? É que não parece nada …”

Os mais velhos são unânimes a dizer que os inícios de Janeiro sempre foram frios e chuvosos, mas agora não é nada disso que temos e a espera estava a deixar-me com os nervos em franja.
Ainda dentro do carro calço a primeira bota que me serve como uma luva e logo a seguir o barulho característico do primeiro pisar de neve … dou início à época invernal.
Descontraio e sorrio, retomo a sensação de estar em casa.
Olho para um companheiro que faz a sua estreia e tenho inveja da confusão que vai na sua cabeça, um turbilhão de sensações que não conseguimos distinguir mas em que aquele aperto bom no coração sobressai e nos preenche. Fico contente por ainda conseguir imaginar a sensação e sei que quando deixar de poder tal sentimento talvez este tenha deixado de ser o meu lugar.
De repente pára o vento e a neve que caía de rajada parece agora flutuar, ora pára, ora sobe mas acaba sempre cobrir o chão e dar-lhe o branco característico destes momentos.
O momento de pôr a mochila às costas anuncia o começo do percurso e já por esta altura partilhamos todos a ansiedade do momento.

Soltam-se baboseiras em desgarrada, cada uma mais estúpida que a outra mas todas se dizem com a fatal convicção que são engraçadas.
Ao nosso lado passa um grande tudo que nasce numa minihidrica bem perto de onde estamos e termina lá em cima, duzentos metros mais acima, se contados na vertical, na Laguna del Duque que é o final da nossa primeira etapa.
Seguimos o caminho sem dificuldade de maior e ao chegar à barragem somos presenteados com a magnífica vista deste lago que se enquadra num circo glaciar e que, naqueles minutos, ainda nos deixa ver os cumes nevados que o rodeiam.
O dia tem os seus reveses, nomeadamente acabamos por constatar que não conseguiremos subir ao cume que queríamos porque a neve está demasiado fofa e dá-nos à altura do meio da coxa, o que faz com que cada passo se converta numa aventura fisicamente penosa. Mas, mesmo assim, os sorrisos escancarados dizem-nos que foi um bom dia, um excelente recomeço.
David Monteiro


