Quarta-feira, Agosto 05, 2009

El Chorro, Málaga, Espanha, Abril 2009



Arrebatador.

Não encontro qualquer outro adjectivo que melhor descreva o impacto que a paisagem de El Chorro provocou em mim.

Pensei que por já conhecer o local, pudesse não sentir um impacto tão grande como o que senti quando anteriormente aí estive, mas enganei-me, foi simplesmente arrebatador.

Conheci o local em finais de 2005 durante uma actividade de escalada, é considerado como a Meca da escalada na Península ibérica e o local, em conjunto com a quantidade de vias de escalada aí montadas, fazem jus à fama. Porém, durante as actividades de escalada não é possível conhecer um local com profundidade, pois o objectivo é outro e envolvemo-nos no que na altura nos move, daí que sempre fiquei com a “pulga atrás da orelha” para voltar aqui para caminhar e conhecer.

Tínhamos três dias para explorar a zona e preparei alguns percursos para fazer, aos quais juntei a possibilidade de fazer uma via ferrata na zona do Camorro Alto.

No Chorro está identificado o “Caminito del Rey” como via ferrata mas confesso que me recuso fazer tal percurso pelos riscos objectivos de derrocada que apresenta. Mostra-se como uma via ferrata fácil e espectacular, no entanto, talvez só se os praticantes se recusarem a utiliza-la talvez as autoridades apostem na sua reconstrução como uma jóia do local.

Consegui encontrar sugestões de percursos pedestres no local mas, como é meu hábito, sabia que podia ir à aventura, pois as alternativas e a configuração do terreno assim o permitiam.

Primeiro dia

No primeiro dia fomos conhecer o “Desfiladero de los Gaitanes” que é o local mais emblemático da zona.

Túneis com pontes de ferro e pedra, paredes com muitas centenas de metros, jorros de água que caem debaixo de pontes como se fossem imensas cascatas, levadas de água com cerca de 2m de largura … são alguns dos atractivos desta zona.

Começámos por seguir a linha do caminho-de-ferro mas passado algum tempo optámos por fazer o percurso circular, contornando sempre pela direita.

Esta opção permitiu-nos, depois de ir à magnífica ponte/conduta de onde jorra água a montes, atravessar o rio duas vezes e subir até ao ponto mais alto da zona.

Pelo caminho vimos uma reentrância na rocha, em jeito de gruta abrigo onde havia um sofá … de dois lugares … como terão conseguido a proeza de ter transportado tal mastodonte até ali? Impressionante :)

A descida foi engraçada porque nos obrigou a encontrar local por onde fosse possível destrepar por umas rochas … imaginem o caminho por onde nos metemos.

No total fizemos um percurso com pouco mais de 18km’s e 1.200m de desnível acumulado num dia MUITO preenchido de paisagens espectaculares.


Segundo dia

Depois de um dia tão espectacular fico com alguma ansiedade sobre se o que vem a seguir vai ficar na sombra do dia anterior.

O segundo dia em nada se parecia ao primeiro nem conseguiria medi-lo numa escala de melhor ou pior, só e simplesmente diferente.

Dividimos o dia em dois e de manhã fomos fazer um pequeno percurso pedestre em Torcal de Antequera.

Imaginem que somos seres minúsculos que decidem caminhar numa travessa cheia de restos de bolo de Bolacha Maria, assim nos sentíamos.

À nossa volta tínhamos umas formações rochosas extraordinárias que se pareciam com grandes discos de pedras que tinham sido empilhados em colunas que ao mesmo tempo tomavam formas mundanas.

É um fenómeno geológico muito curioso e que pode ser conhecido acedendo a: http://en.wikipedia.org/wiki/Torcal_de_Antequera

Foi um passeio curtinho mas mesmo muito giro, é um local a não perder a oportunidade de visitar.

Reservámos o percurso da via ferrata para fazer da parte da tarde, percurso esse que seria complementar à ascensão ao Camorro Alto, o ponto mais alto da região.

Não foi difícil encontrar o início da via ferrata, um fulano espanhol que tinha dado meia-volta por ter achado a via muito difícil, deu-nos as indicações exactas sobre a localização e fomos lá dar num instante.

Começámos a subir a via ferrata mas as minhas companheiras não poderam continuar pois a via apresentava muitas deficiências que aumentavam muito o nível de dificuldade e decidiram ir ter comigo ao topo da via dando a volta pelo percurso pedestre, dali continuaríamos o caminho até ao topo Camorro Alto.

Continuei a percorrer a via ferrata. Está muito mal equipada face às exigências actuais, está envelhecida e com as seguranças muito afastadas, o que lhe aumenta o grau de perigosidade (não tanto dificuldade).

No momento de ultrapassar a famosa ponte tirolesa que inspirou tantos filmes “Youtubescos” encontrei um casal que seguia à minha frente. O que presenciei, em minha opinião, deve ser avaliado por quem seja conhecedor das técnicas como “o que não fazer numa via ferrata”.

Felizmente o casal passou sem danos físicos mas creio que a companheira do “artista” não se meterá noutra igual tão depressa … tal foi o susto.

Deixei o casal de estarolas passar e depois foi a minha vez de me divertir.

É a parte mais emocionante e divertida desta via ferrata.

Depois da via ferrata, retomei o percurso pedestre e rapidamente reencontrei as minhas companheiras.

Dali até ao topo foi sempre a subir, sem tréguas, até à recompensa de ter uma vista de 360º sobre uma paisagem muito, mas mesmo muito diversificada.

Mesmo ali ao lado ficava a grande área que tínhamos visitado pela manhã e no extremos oposto a zona de El Chorro … fantástico.

As descidas são sempre longas e esta não foi excepção. Pelo caminho encontrámos um “ninho” de rebecos cheio de rebequinhos :) que não teriam mais que uma semana, se tanto.

Chegámos ao carro de “papo cheio” … foi um dia e tanto.

O Jantar
Neste dia acabámos por ir jantar a Antequera.
Procurámos um restaurante que não fosse demasiado “up tite” para não contrastar com o nosso dia de caminhada mas que tivesse bom ar.
Entre os vários restaurantes, fizemos, seguramente a melhor escolha possível.
Das entradas às sobremesas foi tudo irrepreensível.
Pedimos entradas de bacalhau, tipo meia desfeita em jeito de tapas, uns enroladinhos de leitão e tantos outros acepipes que ainda hoje me fazem salivar.
Tenho que descobrir o nome do restaurante para lá voltar … é imperativo.


O terceiro dia

O dia de regresso.

Depois de dois dias tão completos, o dia de regresso tinha que ser a condizer.

De El Chorro a Lisboa são sensivelmente 650Km’s de boas estradas, pelo que dava para fazer um pequeno desvio e fomos conhecer o Cierro del Hierro.

As estruturas que encontramos em Cierro del Hierro é o que resta de uma antiga exploração mineira de ferro, como o nome indica.

É muito interessante e um excelente spot de passagem para dar uma cor adicional a uma viagem. Porém, não é local que, por si só, mereça uma deslocação de Lisboa.

As formações de rocha em vermelhão forte dão um efeito de força e contraste com a paisagem de sobreiros e azinheiras.

O local transmite uma imensa sensação de força, talvez pela energia ali deixada por tantos que por necessidade ou opção gastaram as suas forças nas minas que hoje servem de ponto de interesse turístico.


Regressámos a Lisboa e eu voltei de alma cheia após uma actividade soberba.

Obrigado às minhas companheiras de actividade Romana e Carlota por uns dias tão bem passados.

Bem-hajam,

David Monteiro