
Comecei a pensar na ideia da descida e, ao contrário do que costuma acontecer, senti que seria um bom momento para a fazer em solitário.
Há alguma tendência para as actividades “a solo” serem vistas como tendo um fundo espiritual mas, sinceramente, neste caso nada poderia estar mais longe da realidade.
Esta actividade aconteceu assim porque assim senti que devia acontecer … estava mesmo a apetecer.
O relato desta actividade será dividido em alguns capítulos para que não se torne num só “post” muito extenso.

Antes da actividade
Há um momento em que decidimos levar a cabo uma actividade e penso que é nesse momento em que a aventura verdadeiramente começa. A partir daqui começamos a viver momentos por antecipação … é inevitável.
Mais que inevitável, penso que é fundamental que tal aconteça porque nos ajuda a preparar e a planear a actividade com cabeça, tronco e membros, sendo também a forma de revermos os detalhes … quem vai ao mar avia-se em terra.
O troço do Guadiana que vai de Mértola a Vila Real de Santo António tem cerca de 70Km’s. O rio sofre a influência das marés desde a foz até à zona conhecida como Moinhos do Canal que fica sensivelmente a 7 Km’s a montante de Mértola.
Como vim a verificar, no que se refere à canoa, o efeito da maré não é muito relevante. Facilita ou dificulta conforme o sentido da maré face ao sentido do nosso trajecto mas de forma ténue.
No entanto, já no que se refere ao vento, o caso é muito diferente. Dependendo da sua intensidade e sentido podemos estar perante um grande obstáculo ou uma valente ajuda.
Como é habitual, para preparar a actividade, comecei a procurar relatos na internet de quem já tivesse feito este trajecto de rio. Não tinha qualquer ideia sustentada sobre o que me esperava ou sobre quanto tempo iria necessitar.
Em relação ao percurso, já tinha feito anteriormente, com o amigo Trinitá, o troço entre Mértola e Pomarão que são cerca de 19Km’s mas nada sabia do Pomarão até Vila Real de Santo António.
A primeira etapa da preparação não deu resultados satisfatórios. Os relatos que encontrei incidem sobre o troço que já conhecia e só encontrei um relato que apontava no sentido do troço Mértola/Alcoutim ser feito em dois dias, o que achei um exagero.
Um relato que encontrei menciona grandes dificuldades de navegação no local onde se dá a confluência do Guadiana com o rio (ribeira?) Chança, logo após o Pomarão, situação que achei um absurdo ao ler e que vim a confirmar o absurdo ao lá passar.
Não tendo relatos que me pudessem ajudar, tinha que confiar no estudo do local através do mapa e internet, na experiência e bom senso que, tal como diz o outro senhor francês, todos temos mas que às vezes não usamos da melhor forma.
Como de costume, fui comprar os mapas ao Instituto Geográfico do Exército (http://www.igeoe.pt/) e trouxe as folhas 46II, 50I e 50II da série M782 (1/50000) .
Ao olhar para o percurso nos mapas pareceu-me razoável fazê-lo em 3 dias, considerando que teria que fazer algumas paragens para conhecer alguns locais.
Previa que na primeira noite fosse dormir perto da povoação espanhola de Puerto de la Caja e que na segunda noite poderia acampar perto de um antigo posto da Guarda Fiscal nos arredores da Barragem de Odeleite e assim sendo chegaria a Vila Real pelas 17:00 do terceiro dia.
Com alguns testes anteriores, fiquei a saber que consigo remar a um ritmo de 4 a 5 Km/h pelo que teria entre 5 a 7 horas de actividade diária, o que me pareceu razoável.
Aproveitando até Mértola a boleia do amigo Zé Gil, planeei começar a descida numa quinta-feira. No seu trajecto semanal até Tavira, o Zé faria um desvio por Mértola e aí me deixaria, tal como veio a acontecer.
Com a sua paciência infinita, ficou combinado que o Zé me iria buscar a VRSA no sábado à hora que eu aí chegasse.
Tralha arrumada, “malas feitas”, era o momento de dar início à actividade.
O próximo "post" será sobre o Primeiro Dia (óbvio)
Bem hajam,
David Monteiro


