
Indo a São Miguel não queria deixar passar a oportunidade de subir ao Pico da Vara, o ponto mais alto da ilha. Não porque seja uma ascensão que envolva um grande desafio técnico mas porque todos os relatos me indicavam ser uma zona muito bonita, onde impera o nevoeiro, a humidade e imensas zonas de vegetação luxuriante.
A ascensão pode ser feita partindo de vários locais, uns mais difíceis que outros mas, mesmo sem ter visitado todas as vertentes, pelo que vi consigo dizer que qualquer um dos lados gozará da sua beleza própria.
Quando comecei o percurso não sabia muito bem quais os locais onde iria, sabia que o Pico da Vara era o local onde queria passar e daí logo iria decidir onde dormir e para onde ir no dia seguinte.
Decidi começar o percurso partindo de Povoação por ser à beira-mar e porque daqui parte um trilho marcado até ao Pico da Vara. As informações sobre o trilho dizem que o percurso tem cerca de 15Km’s classificado de dificuldade elevada e, efectivamente, partindo da zona marítima até ao Pico da Vara que tem 1.103m não poderia esperar por um percurso muito fácil.
Na vila andei um pouco às aranhas para encontrar as marcações de início de trilho mas lá dei com as marcas.
A saída da zona urbana não tem qualquer interesse, como é normal, mas rapidamente somos obrigados a passar um vale onde corre um ribeiro e esse é um vale fantástico. O vale está escondido entre casas que se estendem ao longo da estrada.
Ao passar o dito ribeiro senti que pisava umas “rochas” redondas que afinal eram abóbora gila ehehehe muito bonitas com as suas riscas J apeteceu-me trazer uma mas … andar com aquilo na mochila seria uma experiência cansativa.
Quando o trilho sai da zona urbana ganha uma dimensão e uma beleza de cortar a respiração … bom aqui era mesmo de ficar sem ar mas pela humidade que se fazia sentir e que me fazia transpirar mais que a conta.
A determinada altura temos a impressão que estamos numa floresta equatorial e que de dentro da vegetação irá sair alguma jibóia ou algum outro animal do género, tal é a densidade de verde.
Não me cansei de contemplar os fetos, simplesmente enormes, senhores do espaço. Parecem braços enormes que se abrem em direcção ao céu, prontos a abraçar a chuva frequente e, do seu centro, nascem antenas peludas que captam a energia positiva que circula neste ambiente impossível de se ignorar.
O trilho vai passando de uma “canada” por onde circula o gado até ser uma estreita e serpenteada vereda onde a vegetação insiste em conquistar terreno.
Quanto mais estreita é a vereda mais se sente a humidade.
Comecei o percurso com 1,5 litros de água mas ao passar por uma povoação comprei mais uma garrafa de água de litro e meio … que se lixe o peso, sem beber água é que não podia ser.
Bendito o momento em que comprei a água adicional, porque a humidade fazia-me transpirar de tal modo que previa que a água se iria esgotar rapidamente.
A vereda termina repentinamente e dá lugar a um largo e íngreme estradão, vê-se perfeitamente que é a fase da subida para o Planalto dos Graminhais.
O Planalto dos Graminhais é uma zona muito engraçada. O chão é fofo, fruto da existência de um acumulado de plantas que forma uma espécie de turfeira.
Por quanto sei, esta zona retém uma imensa quantidade de água e, de alguma forma, regula a quantidade de água que é disponibilizada às encostas evitando que a água das chuvas desapareça assim que cai e evitando também a lixiviação das encostas.
Caminhar nestas turfeiras é um autentico “walking on the moon” :)
No planalto encontramos uma pequena elevação que atravessa a turfeira e é onde devemos caminhar, preservando este ecosistema.
Encontrei um nevoeiro cerradíssimo, como podem ver nas fotos, de tal forma cerrado que juraria que iria encontrar o D. Sebastião mas … ainda não foi desta.
O Pico da Vara não se fez esperar e eis que, ao contrário do desaparecido monarca, apareceu no meio da bruma, anunciado por uma placa de fim de trilho.

Bom … era tempo de decidir o que fazer.
Olhei para o mapa à procura de inspiração e a quantidade de locais para onde podia ir em conjunto com o meu desconhecimento sobre esses sítios tornavam a decisão pouco óbvia.
Decidi-me por Algarvia … não me perguntem porquê … um feeling.
Voltei um pouco atrás e encontrei o trilho que descia pela encosta e me levaria à vila.
A descida escorregadia fez-me dar um valente “bate-cú” que acabei por ficar a rir sozinho.
A água já se tinha acabado e ansiava por chegar a Algarvia.
O caminho é simples e directo, não há como enganar.
Cheguei a Algarvia e entre conversas com a população local, acabei por conhecer o Sr Herculano Dutra, o Presidente da Junta de Freguesia, que disponibilizou algum tempo para falar comigo.
O Sr Herculano Dutra mostrou-me Algarvia e as obras que tem feito. Deu-me a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o local, referenciando os fundadores algarvios que deram nome à vila e os seus habitantes, gentes amáveis e prontas para entabular conversação.
Terminei o meu dia a montar a minha tenda no Miradouro da Vigia da Baleia.
Tinha caminhado 25,2Km’s, com um desnível positivo acumulado de 1.170m num total de 6 horas, estava cansado e, depois de ter parado de andar e montado a tenda, a fome começou a fazer-se sentir … até me doía o estômago.
Estava um fim de dia fabuloso, o sol punha-se lentamente no horizonte e à minha vota reinava a paz e tranquilidade.
Uma casa de banho perto com água tépida permitiu-me passar-me por água e livrar-me do suor que me fazia colar a tudo o que me encostava.
Faminto mas tranquilo, pude finalmente comer o meu jantar que acompanhei com uma cervejola preta sem álcool, uma beberagem meio doce mas que adorei.

O sol desejou-me as boas noites e em breve estava um escuro de breu que me permitia apreciar as estrelas … mas não por muito tempo pois os sonhos ocuparam o lugar da consciência.
Foi um excelente dia.
David Monteiro


