terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Refúgio Saboredo, Aigüestortes, Espanha

Encontrar uma cerveja a meio da montanha é como um sonho.

Não há quem faça trajetos de montanha que, atravessando uma montanha num dia de calor, não tenha dito “o que vinha agora a calhar era uma cerveja”. Se não disse é porque não gosta de cerveja e então é compreensível.
Acontece porém que, se tudo corre normalmente, esse desejado local para beber o néctar simplesmente não existe.
Procuramos o isolamento que a montanha nos dá mas ao mesmo tempo o que queremos é uma esplanada com uma bela cervejola … e se houver uns petiscos para acompanhar tanto melhor, é a festa completa.
Conhecendo o género humano português sei que ao ler isto uns quantos já estão a pensar contrariar este raciocínio … “eu quero um chá” … pois seja um chá que não fará qualquer diferença para o raciocínio em questão. Se não levarem o chá ou a cerveja, dificilmente encontrarão um “chiriguito” onde o/a dito e a palavra dificilmente não foi escrita ao acaso.
Quando caminhamos do Refúgio de Amitges para o Refúgio de Colomers, no Parque Nacional de Aigüestortes, nos Pirenéus espanhóis, a certa altura podemos passar pelo Refúgio de Saboredo e até parece que o nome apela a saborear qualquer coisa.
Como é normal, não refiro este encontro a ninguém dos grupos quando saímos do Amitges mas quando passamos pelo Saboredo é quase hora de almoço, talvez um pouco cedo, mas sempre em boa hora de comer a sandocha do picnic e é aqui que não falha a cervejinha … ou o chá.
O refúgio não se vê de longe quando caminhando nos aproximamos dele e de repente já estamos muito perto, é uma extraordinária surpresa.
A primeira vez que aqui passei quase não dava por ele de tanta neve que tinha pelo que da segunda também foi uma surpresa que aprendi para brincar com os grupos seguintes.
De uma casa de pedra já muito velha, hoje em dia é um belo espaço.
Já vou afiando os crampons ou as raquetes de neve para aqui voltar no início da próxima temporada e aí beberei … um chá :) ou será uma cerveja?
Bem hajam.
David Monteiro

Caminhar nos açudes do rio Alva, Portugal

Há uns anos liderei um conjunto de caminhadas em atravessavam os açudes do rio Alva.

Não sei quantos açudes terá o rio e nem é esse o objetivo neste momento.
O certo é que estas estruturas sempre me fascinaram pela sua força constante e pela sua presença não impeditiva que a água corra mas ao mesmo tempo criando uma acumulação e concentração de vida por abrandar a sua fluência.
Os percursos foram desenhados para cruzar o rio várias vezes caminhando em cima das represas pelo que o grande desafio foi conjugar a meteorologia o mais favorável possível com o caudal do rio Alva suficientemente forte para ter alguma massa de água que fosse interessante mas, ainda assim, que se deixasse cruzar sem que a água arrastasse os caminhantes enquanto estes caminhavam em cima dos açudes.
Os grupos de caminhantes eram constituídos sempre aceitando esperar pela melhor altura para ir fazer o percurso pedestre. Também há a considerar que essa “avaliação” era empírica e feita desde Lisboa mas com base na minha experiência nestas matérias.
O local escolhido para caminhar acabou por ser a área que está entre Hombres, Carregal e Ponte de Mucela na zona de Penacova.
Desenhei e caminhei várias versões do percurso dado que é uma zona com muitos trilhos de acesso a zonas de cultivo e optei por não seguir nenhum percurso previamente marcado. Não sei se existiam ou se existe algum ou não mas é muito provável que sim.
Sempre na procura do trajeto mais bonito, acabei por perceber que as várias versões eram todas interessantes, cada uma da sua maneira.
Onde começar? Talvez Fiúmes seja uma boa ideia mas sendo percursos circulares não é relevante onde é o início.
Estes trajetos têm entre 15,5 a 17Km e em termos de desnível podem variar entre 500m a 750m de desnível positivo acumulado. Dependendo do nível de dificuldade que se pretende assim escolho o trajeto específico.
Obrigado pela excelente companhia dos participantes.
David Monteiro

Caminhada na encosta do vulcão até Cova, Santo Antão, Cabo Verde

A caminhada que passa por Cova, em Santo Antão, é uma das mais procuradas na ilha.

À medida que o táxi ia-se aproximando do Paúl, eu ia compreendendo melhor a razão que levava os locais a dizerem que o percurso Cova/Paúl se deve fazer descendo e não subindo como eu queria fazer. À minha frente ia-se revelando a subida de 750m de desnível acumulado que teríamos que enfrentar ao longo da manhã que parecia simultaneamente desafiante e demorada.
O nosso motorista, Neu, perguntou-nos uma última vez em tom de gozo se tínhamos a certeza que era isso mesmo que queríamos fazer e, face à nossa resposta positiva, com um tom algo jocoso disse “é capaz de ser difícil”.
A vida agitada deste motorista que também faz criação de porcos, galinhas e peixes de aquário, não passava por ser guia de caminhadas, profissão não o atraia nada e, tal como ele dizia, esse não era um trabalho para ele que sonhava em ter um talho em Porto Novo.
Antes desta viagem tive oportunidade de estudar estes trilhos e já sabia que o caminho é um imenso empedrado, empinado ao longo da encosta vulcânica até à cratera a que dão o nome de Cova e que é uma zona de cultivo muito fértil devido à humidade que aí se acumula, provocada pelo estacionamento das nuvens que fazem a mesma ascensão que fazíamos durante a manhã. Ligando Cova ao Paúl de forma direta ainda assim não é caminho que se escolha por causa da dificuldade que sua inclinação representa.
Sendo difícil como se apresenta, é normal que ao longo do caminho tenham sido raros os companheiros de jornada. Tivemos como companheiros um par de moços que nos ultrapassaram, em que um deles ia montado num burro que não parecia importar-se com a tarefa, e um casal de jovens que subiam alegremente entretidos nas suas brincadeiras e em grande e identificável cumplicidade.
No entanto, no sentido descendente lá iam aparecendo grupos numerosos de caminhantes liderados por guias locais, a julgar pela aparência.
Este empedrado em que subimos oferece muitas oportunidades de fotografia paisagística mas que na altura estava altamente comprometida e limitada pela neblina que a partir de certa hora ascendia em grande velocidade cobrindo tudo o que a vista queira alcançar.
Nesta embriaguez de pensamentos, a minha cabeça imediatamente começa a imaginar o esforço que foi necessário para dar corpo a esta imensa obra num país com tão poucos recursos como este. Foi seguramente a custo de força braçal de muitos cabo-verdianos e de esforço de muitos burros que por aqui fazem as cargas para os locais menos acessíveis.
Mas há aqui um recurso abundante e chama-se: tempo. É um recurso precioso de que carecem as coisas boas da vida e havendo esta abundância, não há pressa para quase nada tal como também não houve para construir este trajeto.
Este caminho, com estas pedras ou outras, era um dos locais onde no tempo dos meus pais e tios se criavam os mitos de valentia sobre quem até aqui subia.
Fugindo destes raciocínio volto à Terra e adianto-me à minha companheira de jornada para melhor captar outras perspetivas com a minha câmara e dela imediatamente recebo o olhar de misto arrependimento de estar a subir esta encosta mas também com o gozo de o estar a fazer isto mesmo e vivenciar este momento inesquecível
Reparo entretanto que somos alcançados pelo mar de nuvens que nos perseguiam de baixo para cima. Fomos apanhados mesmo ao entrar pela porta que dá aceso a Cova.
Ultrapassando esta porta ficou ultrapassado o nosso primeiro obstáculo do dia e às nossas costas vai-se compondo um cenário de nuvens com um ar dramático e à nossa frente temos Cova com o seu manto verde de culturas.
Já o apetite vai dominando o raciocínio e os meus pensamentos começam a fixar-se no almoço mas isso já é tema de outro post.
David Monteiro

Via ferrata Les Baumes Corcades, Espanha

Classificada como K4, num máximo de K6 na Escala de Hüsler, ou seja Difícil, esta via ferrata localiza-se perto de Centelles, província de Barcelona, Espanha.


É uma via ferrata sobejamente conhecida pela sua ponte tirolesa/himalaia de cabos paralelos com 68m de comprido a cerca de 25m de altura, para além de outros obstáculos muito interessantes tal como alguns passos subprumados - palavra utilizada na gíria da escalada mas que não se encontra no dicionário da língua portuguesa e que se refere a uma parede com inclinação que se assemelha a um teto, ou quase.
A certo dia eu liderava a atividade onde levava dois escaladores comigo.
Os dois escaladores eram pouco experientes e sabia que teria que montar segurança de top-rope em alguns locais. Sabia também que um dos escaladores iria optar por contornar os obstáculos mais difíceis por se sentir pouco à vontade nessas situações.
O dia seguia com a sua excitação e adrenalina próprias. O pequeno grupo estava delirante e tudo corria muito bem como planeado.
Ainda não consigo descrever o meu espanto quando após dobrar uma esquina vejo uma rapariga pendurada numa corda.
Instantes antes eu tinha ido à frente para montar segurança para um dos escaladores e por saber que imediatamente a seguir viria outra parede subprumada, continuei à frente.
Foi neste contexto que a seguir à curva vi a dita moça pendurada que chorava e tremia literalmente apavorada e o escalador que me seguia tirou a foto que podem ver.
O que se estava a passar?   Simples de explicar.
O companheiro da moça, vendo que esta não conseguia ultrapassar a “barriga” que estava por cima das nossas cabeças, subiu primeiro e foi montar a dita segurança de top-rope. Até aqui tudo bem.
Acontece porém que ainda assim a rapariga não conseguiu ultrapassar a dita “barriga” e acabou por ficar suspensa pela corda a uns 60 ou 70m do solo.
Mais tarde vim a saber que a corda que estava a ser utilizada era uma corda dinâmica de uso em single com 60m.BaumesCorcades-002---Espana
Nem a rapariga conseguia subir, nem havia corda suficiente para a fazer chegar ao solo, o companheiro não sabia fazer a manobra correta para a ascender e é aqui mesmo que reside o problema pois esta seria a solução.
Depois de a acalmar o quanto possível acabei por a colocar em ombros e ascender à força de braços pela parede. Naturalmente que já tinha percebido que o companheiro sabia tirar a folga da corda cada vez que era aliviado peso da rapariga.
O caso acabou por ter um desfecho positivo sem dramas de maior, o que é o melhor de tudo.
"Vem, és capaz, aquilo é fácil"
Todos nós temos ou já tivemos um amigo que insistiu para participarmos numa atividade para qual estávamos inseguros sobre a nossa capacidade ou até tínhamos alguma certeza de não estarmos preparados.
É curioso ver a imensa frequência com que ocorrem estas situações e é mais curioso ainda ver que apesar das inúmeras histórias destas que acabam mal ainda assim há quem alinhe.
Sabendo isto, e é um cenário conhecido, porque será que alguém alinha nisto ou porque será que alguém insiste com outro para este tipo de aventuras?
Ninguém é santo e eu seguramente não o sou.
Não sei qual o equilíbrio entre a insistência e o incentivo mas o que quero deixar aqui é a necessidade de reflexão sobre este assunto.
Soluções são várias. Entre frequentar uma formação específica ou contratar serviços profissionais qualquer uma opção é preferível a meter-se em problemas.
Boas aventuras em segurança.
David Monteiro

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

(Re)Andar de bicicleta

Andar de bicicleta dá-me uma imensa sessão de liberdade.bikes001

Não duvido que o mesmo possa acontecer com outras actividades para outras pessoas mas para mim quando ando de bicicleta é quando sinto esta sensação de forma mais vincada.
Tal como tantas outras pessoas, quando era miúdo andava imenso de bicicleta mas por qualquer motivo que não consigo perceber deixei de o fazer.
Passei muitos anos sem andar de bicicleta até que há uns dez anos, por insistência do meu amigo Zé Gil, acabei por voltar a pegar numa e nunca mais consegui afastar-me muito tempo de uma bicicleta.
Como qualquer (re)iniciado, a princípio andava pouco tempo, fazia distâncias muito curtas mas tinha muito prazer nisso.
Naturalmente as ditas voltinhas começaram a ser mais longas, para locais mais interessantes e o desnível ia deixando de ser um entravo.
Claro que experimentei várias “modalidades”, claro que ao praticar BTT caí até e aleijei-me ao ponto de pensar que talvez esta não fosse uma actividade para mim. Afinal de contas, aleijar-me, para além do que a dor representa, também há para mim o impacto financeiro de não poder desenvolver no dia-a-dia a minha atividade de guia/monitor em actividades de ar livre, o que é francamente prejudicial.
Mas esse infortúnio não me impediu de voltar a pedalar e não deixei de gostar de BTT por causa disso.
Porém, com o tempo fui ganhando o gosto por fazer distâncias mais longas, conhecer locais diferentes e dar mais valor à contemplação da paisagem. Ao mesmo tempo fui perdendo o entusiasmo por percursos de dificuldade técnica.
Percorrer caminhos e trilhos que nos levam a visitar paisagens dignas de registo na nossa memória ao mesmo tempo que nos sentimos ativos e com o sangue a correr nas veias é verdadeiramente o que mais gosto de fazer.
Com estes passeios vieram as viagens, era inevitável.Montemor o Novo 001 - Portugal
Todo o percurso desde não andar de bicicleta a fazer viagens surgiu de forma tão natural e sem esforço que me espanta quando alguém me diz que também gostaria de participar nestas viagens mas que não se sente preparado(a).
Quando viajo e vejo pessoas de todas as idades e condições físicas a fazer viagens de bicicleta e vejo o seu ar feliz, com todas as histórias de aventuras por que passam, sinto qAldeias-Avieiras-001-Portugalue posso e até talvez deva fazer algo para facilitar a entrada neste mundo das viagens de bicicleta a quem efetivamente queira.
Comecei a lançar, através da www.montesevales.com, um conjunto de passeios de bicicleta que pretendem, de forma gradual, dar a possibilidade de treino/prática para quem venha a querer participar em alguma das nossas viagem de bicicleta.
Lancei 3 níveis:
Iniciados em Bicicleta
Um pequeno passeio de bicicleta direcionado a quem saiba andar de bicicleta mas que não tenha prática ou há muito tempo que não anda de bicicleta e quer voltar a andar.
Nestes passeios são percorridas distâncias curtas, em terreno maioritariamente pavimentado e plano.
Há várias paragens para tomar café e descansar, acontecem onde há possibilidade de acesso fácil e escapatórias para quem não queira fazer o percurso completo.
Acontecem em Lisboa e arredores e a participação está limitada ao número de 15 participantes por passeio.
Passeio de Bicicleta
São passeios de bicicleta que em quase tudo se assemelham aos dias passados em viagens de bicicleta com a exceção que apostam em percursos que possam ser feitos em meio-dia sem necessidade de transporte Montes e Vales.
As distâncias já se aproximam às que praticamos em viagens de bicicleta e poderão encontrar terreno pavimentado, secções de percurso em terra batida e há sempre um ou outro obstáculo técnico de baixa dificuldade mas que permite praticar para mais tarde estar à vontade nestas situações.
Acontecem em Lisboa e arredores e a participação está limitada ao número de 15 participantes por passeio.
Dia de Bicicleta
Assemelha-se em tudo a um dia de viagem de bicicleta com exceção de não incluir jantar e pernoita tal como acontece com as viagens. Obviamente aqui não faz sentido haver essa opções.
As distâncias estão dentro do âmbito das praticadas nas nossas viagens de bicicleta e, tal como nas viagens, também poderão encontrar terreno pavimentado, secções de percurso em terra batida e há sempre um ou outro obstáculo técnico de baixa dificuldade mas que permite praticar para mais tarde estar à vontade nestas situações.
Estas atividades incluem a utilização do transporte Montes e Vales, as distâncias simulam as viagens de bicicleta pelo que poderão encontrar terreno misto e/ou pavimentado, secções de percurso em terra batida e há sempre um ou outro obstáculo técnico de baixa dificuldade mas que permite praticar para mais tarde estar à vontade nestas situações.
A experiência nestas atividades dá a confiança de se poder usufruir em pleno a participação numa viagem para além do próprio gozo do momento.
Pensei muito sobre qual o ritmo com que fazer estes passeiose optei por ser um ritmo suave, com alguma dinâmica mas sem ir a "mata cavalos".
Também farei atividades mais atléticas mas estes passeios são para levar com descontração.
Porque não experimenta vir ter connosco?
Vá vendo o Calendário de Atividades em www.montesevales.com e ficamos à sua espera.
Bem haja,
David Monteiro

Caminhar De Fuenterrabia a San Sebastian, Espanha

A caminhada de San Sebastian/Donostia a Hondarribia é, seguramente, uma das mais espectaculares que podemos encontrar na região.

Olhei para o mapa e vi que San Sebastian fica a uns 20 ou 30Km da fronteira Espanha/França sempre pela costa e, vendo mais ao pormenor, consegui definir trilhos e de imediato acendeu-se uma luz na minha cabeça … “isto tem pernas para andar, pode dar uma caminhada muito  interessante”.
De facto, quando estamos na zona das encostas perto da cidade temos uma visão muito ampla do Golfo da Biscaia abrangendo território espanhol e francês.
Assim sendo, e com a intenção de adicionar um dos dias de caminhada à viagem ao País Basco (1), fui testar o trilho entre Hondarribia e San Sebastian.
O percurso provou-se ainda mais interessante do que esperava e depois de algumas correcções acabei por ter 27Km de caminhada mas que pode ter versões mais curtas, exactamente como eu gosto (2).
Inicialmente encontrei um percurso marcado que se apresenta um pouco mais longo e com maior desnível positivo mas encurtando alguns pontos menos interessantes e adicionando certos pontos de interesse acabou por ser mais curto e, em minha opinião, mais interessante.
O trilho desenvolve-se principalmente ao longo da crista do Jaizkibel, uma das montanhas míticas do País Basco e onde podemos encontrar um conjunto de torres que foram construídas durante as Guerras Carlistas.
Neste percurso não faltam atractivos tal como a História da região, uma visita à igreja dedicada à Nossa Senhora de Guadalupe, “The Black Madona”, uma travessia num pequeno ferryboat, faróis, antenas de comunicação e a possibilidade de comer uns belíssimos pintxos em Donibane de Pasaia uma magnífica vila basca.
Gosto de caminhar … é evidente … mas não é uma verdade para todos as ocasiões porque há caminhadas que gosto mais do que outras.
Cada percurso tem os seus encantos mas, para que uma caminhada fique na minha galeria de favoritos, o percurso tem que ter motivos que o tornem atractivo tal como uma história, vistas soberbas, locais fora do comum ou, algo menos objectivo, que me transmita uma sensação especial.
Quando fui experimentar o percurso entre Hondarribia (Fuenterrabia em espanhol) e Donostia (San Sebastian em espanhol) não sabia o que esperar, a expectativa não era nem baixa nem alta mas tranquila partindo da boa perspectiva de um trilho ao longo da costa.
Hondarribia é uma vila basca espanhola que faz fronteira com Hendaye uma vila basca francesa e entre estas localidades está o rio Bidasoa. É, sem dúvida, uma vila espectacular e cheia de vida.
Redesenhada a rota passei à concretização e passou a ser uma caminhada onde conseguimos visitar: farol Higuer, Santuário de Guadalupe, monte Jaizkibel, torres das Guerras Carlistas, Donibane de Pasaia, atravessar o rio Oiartzun num pequeno ferry e ver o Farol de La Plata.
E, antes de atravessar o rio Oiartzun, em Donibane de Pasaia, vale a pena almoçar num restaurante/esplanada que está na margem do rio mesmo perto da foz com vista para o mar.
Seguramente que após fazer esta caminhada um bom banho e uma boa refeição será a melhor coisa do mundo e bons locais para jantar é o que não falta em Donostia.
Divirtam-se.
David Monteiro
Notas:

sábado, 28 de janeiro de 2017

Relaxando em São Jorge e contemplando o Pico

É fim do dia e acabei a minha sessão de alongamentos após um belo dia de caminhada em São Jorge, o paraíso açoriano para caminhantes, e daqui contemplo o Pico.

Ouvia uma música enquanto me esticava. Já a tinha preparado para este momento de descompressão.
Relaxo, calam-se as vozes da minha cabeça, instala-se o silêncio que agora é preenchido pela melodia e deixo-me levar na onda.
No fim da sessão sinto uma leve sonolência que não me adormece mas me mantém a pairar a um palmo do chão.
Usufruindo desta sensação deslizo até ao sofá onde me espera o meu sábio e silencioso amigo tinto.
Confraternizo com este amigo enquanto o seu curto futuro assim permite e entretanto vou contemplando o Pico e aproveitando do que resta deste dia de sol.
Já não oiço a música, só mesmo a minha respiração e o insistente bater do coração que agora bate mais espaçado.
Há coisas boas na vida.
Bem-hajam,
David Monteiro

Artigo original
Nota: a fotografia foi tirada nas instalações da Quinta de São Pedro

Amesterdão e os seus canais, Holanda

As paralelas que se encontram no infinito têm um significado especial em Amesterdão.

Caminhei em Amesterdão como qualquer turista, horas a fio para cá e para lá. Nos vários dias que aqui estive ainda juntei a demorada visita a um par de museus para ver algumas pinturas que sempre povoaram o meu imaginário.
Sem qualquer originalidade, fiquei deslumbrado com o mar de bicicletas também pensei “estes tipos fazem tudo de bicicleta” e tirei um incontável número de fotografias incluindo ciclistas nas mais diversas situações … sim sim, daquelas em que os locais levam duas ou três crianças a reboque ou à frente.
No primeiro dia, ao chegar ao hotel batelão após muitas horas a andar, vi as fotografias e tive uma sensação de enjoo tão grande que me apeteceu apagar a pasta completa mas acabei por não ter assim tanta coragem.
Não me aborrece tirar fotografias cliché desde que, no mínimo, me pareçam apelativas esteticamente. O problema é que estas fotografias estavam razoáveis e por si só isso é um problema, tal como a água morna … não impacta.
No dia seguinte continuava entusiasmado com a cidade e o apelo a disparar não tinha diminuído mas senti que faltava alguma coisa.
Adorava ter daqueles "cliques" que ouvimos outros a dizerem que têm mas isso também não aconteceu.
Após um par de voltas sem melhoras foi um excelente momento para parar e ver a cidade de um ponto mais elevado, neste caso desde uma cafetaria que se encontra no terraço de um dos poucos prédios altos da cidade. A mudança de perspectiva começou a dar frutos.
Ao rever as fotografias vi que o problema não estava tanto nas fotografias que as considerei decentes, mas sim na falta de tema ou de fio condutor e por isso tudo me parecia sem ângulo nem alma.
O que se passava? Considerando que Amesterdão é uma cidade com a qual me identifico muito, tenho ali vários amigos e nessa altura ainda tive oportunidade de revisitar uma amiga de longa data, a Paula que me deu a conhecer o Hélder, o seu marido, com quem imediatamente senti uma imensa afinidade. O que se passava?
Afinal as fotografias que tirava tinham algum fio condutor que eu não conseguia identificar. Esta sensação indefinida dizia-me que de forma inconsciente havia um tema que me atraia.
Foi necessário algum distanciamento e uma mudança de perspectiva para voltar a ver as fotografias e perceber o que captou o meu olhar de forma espontânea: as linhas paralelas dos canais que convergem para um ponto de fuga e que o olhar detectou automaticamente.
Se esta tranquilidade que a simetria me deu agarrou a minha atenção de forma tão subliminar, ao cair do dia este bem estar transformou-se numa necessidade com o acender das luzes que em cada margem vincam as arestas destes canais dando corpo à ideia que as paralelas encontram-se no (in)finito.
David Monteiro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Subir o Pico com ou sem guia?

A resposta a esta pergunta é capaz de não agradar a muitos caminheiros.

Para qualquer português/portuguesa praticante de caminhada, montanhismo ou algo do género, chega sempre o momento em que pensa subir o Pico, é inevitável.
Esta imensa montanha que dá nome à ilha, também domina a paisagem das ilhas a seu redor quer seja de São Jorge e Faial como também da mais longínqua Graciosa. Naturalmente que estou a referir a vista que temos dos ângulos onde se encara o Pico desde as referidas ilhas.
Vi pela primeira vez o Pico em 1987 quando cumpria o serviço militar na Armada Portuguesa e aproximava-me da ilha a bordo da fragata NRP João Belo.
De longe, ao ver uma ilha que flutuava num mar de nuvens não conseguia compreender o que se passava. Há que lembrar que nessa altura ainda não havia o acesso que temos hoje em dia a informação sobre os locais para onde vamos, ou seja não havia Google onde ver fotografias, ler críticas e ver fotos sobre o Pico e a sua montanha, o recurso a bibliografia era mais difícil e todo o processo de consulta era muito mais lento e demorado.
A ilha parece que flutua porque o manto de nuvens que ali estaciona não é tão alto como a montanha e esta sobressai ficando como que flutuasse. É uma imagem que não se esquece.
“Adorava ir lá acima” foi o que pensei na altura mas que tardou mais de 20 anos a cumprir.
Quando desejei subir o Pico já praticava algumas atividades de montanha mas enquanto passavam as mais de duas décadas, angariei muita experiência que foi complementada com um leque de formações específicas e relevantes de forma sistemática.
Liderei várias ascensões de sucesso ao Pico e durante esses momentos tive oportunidade de falar com muitos guias locais, e não só, sobre o “comportamento” da montanha, sobre a quantidade de gente que sobe a montanha e sobre o quanto a maioria das pessoas que fazem esta ascensão estão ou não preparadas para reagir aos potenciais problemas que aqui podem ocorrer.
É normal que o leitor pense “é lógico que este gajo venha aqui defender a contratação destes serviços”. Se pensa isso engana-se e até considero esse raciocínio como falta de imaginação, seria uma resposta fácil demais.
Com o aparecimento e disseminação do uso dos aparelhos de GPS e smartphones com essas capacidades, qualquer caminheiro iniciante rapidamente é induzido, por esta potencial mas aparente facilidade, a fazer o que talvez não esteja preparado que é começar a aventurar-se para estes locais sem apoio de alguém mais experiente sendo guia ou algum caminheiro com mais formação.
Tudo toma uma dimensão ainda mais gravosa quando o dito inexperiente começa a arrastar consigo outros ainda menos experientes.
A ascensão ao Pico, ou mais propriamente ao Piquinho, em relação a um(a) caminheiro(a) algo experiente não apresenta dificuldade de maior enquanto o estado do tempo for favorável. Aliás, o(a) caminheiro(a) encontrará apoio na Casa da Montanha (*) e marcas no caminho que facilitam a ascensão.
Porém, quando o nevoeiro se abate sobre a montanha tudo pode mudar de figura. As marcas de regresso deixam de estar visíveis e há zonas em que a dispersão de trilhos podem levar a zonas com risco potencial.
Qualquer grupo que vai iniciar a subida ao Pico (*) é convidado a passar pela Casa da Montanha onde é registado e munido de um rádio/GPS que comunica com uma central para monitorização dos grupos que fazem a ascensão e, tal como referido, ao longo do caminho há um conjunto de pequenos postes de sinalização do trilho até à base do vulcão.
Agora peço que pensem comigo: esta estrutura de apoio aos caminheiros não tem paralelo em Portugal e não sendo os portugueses de deitar fora os seus parcos recursos então é porque há uma grande razão para haver toda esta estrutura disponível, é porque há riscos potenciais e não são facilmente detectáveis na ascensão ao Pico.
Pois é, o Pico acorda descoberto mas frequentemente ao final da manhã cobre-se com as nuvens que dão o aspecto tão característico que se vê desde o mar ou de outras ilhas mas que estando ali dentro não se vê um palmo à frente do nariz, ou melhor dizendo, só se vê uns poucos metros à nossa frente.
Vale a pena poupar uns trocos não pagando a um guia/empresa e por isso pôr em risco o bem estar dos que nos acompanham e daqueles que mais tarde poderão ter que ir em nossa ajuda?
Não tenho resposta para si porque só dependerá da sua consciência.
Isto é um apelo a que visite a fabulosa ilha do Pico e a sua majestosa montanha mas em segurança, invista na sua própria formação, conheça melhor as suas capacidades e decida de forma capaz.
David Monteiro
(*) Link importante com informação oficial sobre a Casa da Montanha e Regulamento de Subida à Montanha

Caminhada até ao farol de D Amélia, São Vicente, Cabo Verde

Numa viagem de caminhada em São Vicente, Cabo Verde, torna-se imperativo percorrer o trilho que nos leva ao Farol D Amélia.

O trilho inicia-se junto à localidade de São Pedro, uma comunidade piscatória que é a primeira que vemos pela janela do avião ao aterrar no aeroporto Cesária Évora, em São Vicente.
Este pacato povoado de pescadores olha com curiosidade quem aqui vem caminhar, afinal de contas este cenário idílico é o seu quotidiano que até lhes parecerá banal. Porém, para quem aqui vem passar um dia tudo é extraordinário.
Tomamos a direção do hotel que se vê no extremo oposto da praia.
Este rumo é sentido como natural porque a praia que temos à nossa frente convida a caminhar ao longo da margem onde a areia é rija e a paisagem está no seu auge de beleza.
O hotel/resort que se vê na praia, o Foya Branca, é muito procurado por quem vem fazer windsurf e kitesurf, as pranchas à porta do hotel, as velas e as asas a cruzar as águas e o céu fazem-se notar.
O trilho propriamente dito começa logo a seguir ao hotel no sentido do farol que também se vê da praia.
Tentei investigar na internet se existe algum resumo histórico do Farol D. Amélia para poder partilhar mas confesso que acabei por desistir sem encontrar nada mais para além do que é referido na Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Farol_de_D._Am%C3%A9lia
O percurso torna-se tão evidente que deixamos de tomar atenção para onde vamos e o olhar foca-se na fotografia que, quanto a mim, é a atividade rainha em São Vicente.
A linha do percurso em direção ao farol conduz-nos o olhar e o dedo não para de carregar no disparador.
Sucedem-se as fotografias panorâmicas e maldigo a hora em que aqui fui pois o sol está mesmo por cima da minha cabeça dificultando a fotografia. Mas foi a hora em que consegui vir … há que fazer o melhor com o que se tem.
Ida e volta são 7 Km sem grande desnível, sem dificuldade de maior e em piso misto de terra batida e praia.
Excelente percurso.
David Monteiro

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Vigia do Castelo, Ilha de Santa Maria, Açores

Felizmente, hoje protegemos animais que antes perseguíamos.

Na Ilha de Santa Maria, Açores, encontramos a Vigia do Castelo que, se não me engano, pertence ao Centro Interpretativo Baleeiro da Maia.
Este era um dos muitos locais de avistamento da baleia que podemos encontrar no arquipélago dos Açores.
Em excelente conservação, este posto de vigia relembra-nos tempos idos em que as gentes locais se dedicavam a uma atividade, a baleação, então fundamental para a sua subsistência mas que a atualidade nos mostra que foi possível abandonar.
Esperamos que a memória do sacrifício desses magníficos animais sirva não só para a sua atual proteção e conservação como também para o despertar da consciência para a proteção de tantas outras espécies ameaçadas.
David Monteiro

Estátua do Neptuno passeando-se em Lisboa

De repente percebo que a estátua do Neptuno passeou-se mais em Lisboa do que eu imaginava.

O início desta história nada tem a ver com o final e menos ainda com o meio por isso vamos lá começar a pôr ordem na casa.

Início da história

Há uns dias uma amiga publicou numa rede social uma fotografia da estátua do Neptuno que está no Largo D. Estefânia.
Ao ver a fotografia que foi amavelmente feito com um telemóvel percebi que a dita não podia fazer justiça à beleza da estátua que foi recentemente recuperada. Ainda assim, deu para perceber que finalmente a fonte estava novamente iluminada após um largo período de recuperação.
Antes que possa ser vandalizada e enquanto está limpa é a altura perfeita para tirar um par de retratos. Claro que também foi um excelente motivo de convívio com um amigo fotógrafo que aceitou o desafio de imediato e fez o favor de me acompanhar na tarefa.
Após lanchar e esperar um pouco para que o cair do dia se fizesse anunciar, começamos a montar o equipamento e num ápice as máquinas começaram a disparar.
Conversa vai, conversa vem e acabo por dizer ao Rogério que esta estátua começou por estar no desaparecido Chafariz do Loreto, lugar hoje em dia ocupado pela estátua do Chiado.
Como é que sei estas coisas?

Meio da história

É simples. Caso o/a leitor/a não saiba, através da minha agência de viagens faço eventos que requerem conhecimentos de História e a cidade de Lisboa é palco de muitos desses eventos, nomeadamente em Peddy Papers que usam a História da cidade.
Assim sendo, há em mim uma incessante curiosidade sobre o passado de Lisboa e é este desejo de saber que me leva a perguntar quando é que ocorreu essa mudança do Chafariz do Loreto para aqui.

Final da história

Se eu sabia que a estátua tinha tido outra localização, o que não fazia a minima ideia é que entre a primeira localização e o seu atual poiso ela andou a passear-se em Lisboa.
Sem qualquer preocupação de muIto  rigor mas ainda assim com a intenção de saber alguma coisa sobre este assunto, comecei por fazer algumas pesquisas em sites da CML ou que de alguma forma estejam ligados a esta e conjugando com outras fontes que também pretendem informar sobre estes assuntos.
Não foi difícil obter alguma informação mas nada nunca me passou pela cabeça que esta pesquisa pudesse ter resultados tão interessantes.
Comecei a ler o resultado das pesquisas e vi que as informações não eram coincidentes.
Todos os sites eram unânimes quanto a algumas datas como seja o momento da produção da estátua mas quanto ao seu trajeto em Lisboa já não coincidiam. Não que me pareça que algo esteja errado nessas descrições mas sim porque cada site acrescenta dados que os outros não têm.
Não sei qual dos sites está certo ou errado, deixarei isso para os historiadores, mas partilho a súmula dos resultados obtidos e que por si só já tem interesse suficiente.
Então, segundo estes vários sites, a estátua desta divindade romana andou a passear-se em Lisboa até à atual localização, ora vejamos:
1771 - Chafariz do Loreto
1853 - O Chafariz do Loreto é desmantelado e a estátua é levada para a Mãe d’Água da Amoreiras
1866 - Do anterior local é transferida para o Museu Arqueológico do Carmo
1881 - Jardim da Estação Elevatória das Águas dos Barbadinhos onde ficará até 1940
1940 - É instalada na Praça do Chile onde hoje em dia está a estátua de Fernão de Magalhães
1950 - É desinstalada da Praça do Chile para dar lugar à actual estátua. (*)
1951 - É colocada na sua morada actual que é o Largo D Estefânia. (*)
(*) As informações sobre estas datas não são unânimes entre os vários sites, sendo estes anos os que me parecem mais fidedignos.
Tal como referi, esta não é uma pesquisa aturada por isso caso tenha algo a acrescentar não hesite, participe e adicione.

Antes de fechar o artigo

Esta "secção" foi introduzida após a publicação do artigo.
Recebi um par de chamadas de atenção e muito bem, o que agradeço aos leitores atentos, referindo que não tinha mencionado o autor da obra.
O grande Mestre Machado de Castro que nso presenteou com muitas outras obras que irei referir noutros artigos.
Sugiro a leitura de http://www.arqnet.pt/dicionario/machadocastro.html
David Monteiro
Os links referidos:
  1. http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=611
  2. http://www.lisboapatrimoniocultural.pt/artepublica/eescultura/pecas/Paginas/Neptuno.aspx
  3. http://www.ezimute.com/pt-PT/lisboa/categorias/spots/estatua-de-neptuno
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Largo_de_Dona_Estef%C3%A2nia

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

De bicicleta pelas Aldeias Avieiras, rio Tejo


O circuito de bicicleta que liga as Aldeias Avieiras do Tejo está entre os meus favoritos na zona ribatejana.


Nestes dias de chuva em que não me apetece andar de bicicleta, não deixo de sentir alguma nostalgia por dias de bom tempo.
Felizmente esta nostalgia boa tem mais tarde reflexo na concretização de constantes e boas aventuras.
Prometi a uns amigo voltar a fazer o passeio Aldeias Avieiras em bicicleta mas com almoço a meio caminho e assim farei em altura de bom tempo.
Para já partilho um pequeno filme dos locais.
Boa semana,
David Monteiro

Fonte do artigo

Caminhar De Fuenterrabia a San Sebastian, Espanha

A caminhada de San Sebastian/Donostia a Hondarribia é, seguramente, uma das mais espectaculares que podemos encontrar na região.


Olhei para o mapa e vi que San Sebastian fica a uns 20 ou 30Km da fronteira Espanha/França sempre pela costa e, vendo mais ao pormenor, consegui definir trilhos e de imediato acendeu-se uma luz na minha cabeça … “isto tem pernas para andar, pode dar uma caminhada muito  interessante”.
De facto, quando estamos na zona das encostas perto da cidade temos uma visão muito ampla do Golfo da Biscaia abrangendo território espanhol e francês.
Assim sendo, e com a intenção de adicionar um dos dias de caminhada à viagem ao País Basco (1), fui testar o trilho entre Hondarribia e San Sebastian.
O percurso provou-se ainda mais interessante do que esperava e depois de algumas correcções acabei por ter 27Km de caminhada mas que pode ter versões mais curtas, exactamente como eu gosto (2).
Inicialmente encontrei um percurso marcado que se apresenta um pouco mais longo e com maior desnível positivo mas encurtando alguns pontos menos interessantes e adicionando certos pontos de interesse acabou por ser mais curto e, em minha opinião, mais interessante.
O trilho desenvolve-se principalmente ao longo da crista do Jaizkibel, uma das montanhas míticas do País Basco e onde podemos encontrar um conjunto de torres que foram construídas durante as Guerras Carlistas.
Neste percurso não faltam atractivos tal como a História da região, uma visita à igreja dedicada à Nossa Senhora de Guadalupe, “The Black Madona”, uma travessia num pequeno ferryboat, faróis, antenas de comunicação e a possibilidade de comer uns belíssimos pintxos em Donibane de Pasaia uma magnífica vila basca.
Gosto de caminhar … é evidente … mas não é uma verdade para todos as ocasiões porque há caminhadas que gosto mais do que outras.
Cada percurso tem os seus encantos mas, para que uma caminhada fique na minha galeria de favoritos, o percurso tem que ter motivos que o tornem atractivo tal como uma história, vistas soberbas, locais fora do comum ou, algo menos objectivo, que me transmita uma sensação especial.
Quando fui experimentar o percurso entre Hondarribia (Fuenterrabia em espanhol) e Donostia (San Sebastian em espanhol) não sabia o que esperar, a expectativa não era nem baixa nem alta mas tranquila partindo da boa perspectiva de um trilho ao longo da costa.
Hondarribia é uma vila basca espanhola que faz fronteira com Hendaye uma vila basca francesa e entre estas localidades está o rio Bidasoa. É, sem dúvida, uma vila espectacular e cheia de vida.
Redesenhada a rota passei à concretização e passou a ser uma caminhada onde conseguimos visitar: farol Higuer, Santuário de Guadalupe, monte Jaizkibel, torres das Guerras Carlistas, Donibane de Pasaia, atravessar o rio Oiartzun num pequeno ferry e ver o Farol de La Plata.
E, antes de atravessar o rio Oiartzun, em Donibane de Pasaia, vale a pena almoçar num restaurante/esplanada que está na margem do rio mesmo perto da foz com vista para o mar.
Seguramente que após fazer esta caminhada um bom banho e uma boa refeição será a melhor coisa do mundo e bons locais para jantar é o que não falta em Donostia.
Divirtam-se.
David Monteiro
Notas:
  • (1) Este texto está relacionado com a viagem que descrevi em https://montesevales.wordpress.com/2016/08/11/descobrindo-o-pais-basco/
  • (2) A razão pela qual gosto de trilhos com várias opções de distâncias prende-se com a necessidade de ter opções mais curtas de um trajecto longo porque nem todas os caminhantes estão aptos ou com vontade de fazer trajectos tão longos e assim também podem participar sem problema.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Caminhadas no País Basco, Espanha e França

No final de 2016 fez três anos que comecei a guiar umas caminhadas no País Basco, Espanha e França, e confesso que tem ultrapassado as minhas expetativas em diversos campos.


Igual a uma imensa multidão de pessoas que conheço, já tinha ida a San Sebastian passar um dia ou dois, já tinha comido uns pintxos e também dizia que conhecia o País Basco … estava muito longe da verdade.
Efetivamente há muitas regiões onde conseguimos ter uma sensação da cultura local com uma curta visita. Sabemos que não conhecemos bem o sítio mas conseguimos trazer para casa uma ideia geral.
Hoje sei que subestimei o País Basco.
O “país” com a língua viva mais antiga da Europa e cujas origens deste idioma se desconhece só poderia ter uma cultura própria cheia de particularidades interessantes e muito diferentes do que estamos habituados na Península Ibérica. Digamos que as pistas que conduziam a esta conclusão estavam à vista mas ainda assim caí no erro de pensar que poderia ter uma vaga ideia num curto espaço de tempo.
O que inicialmente me levou a pensar numa viagem de caminhada no País Basco é fácil de entender.
Começou por me atrair a ideia de o País Basco, enquanto comunidade histórica, ter parte do seu território em Espanha e outra parte em França. Este facto, por si só, é algo atraente para uma viagem, podermos caminhar entre países tem um certo glamour.
Por outro lado esta região espano francesa tem uma frente marinha com muitas possibilidades de caminhada ao longo dessa linha costeira.
Claro que, pela minha cultura geral, já tinha alguma ideia sobre a cultura basca e que me fascinava.
Muitos atrativos que se conjugavam na perfeição.
Decidido a organizar uma viagem de caminhada no País Basco, comecei por passar uns dias a visitar a zona e tive a sorte de visitar o museu San Telmo em San Sebastian que é um museu dedicado à cidade mas onde também encontramos muitas peças e informações sobre a Heuskal Herria.
É um museu cuja coleção não posso considerar fabulosa, até porque não tenho os conhecimentos suficientes para saber se é o não mas foi para mim um passo fundamental para clarificar o que teria que procurar ou tentar conhecer no País Basco.
Logicamente que San Sebastian, com toda a sua História e o seu ambiente elegante, cosmopolita e progressista, está em merecido destaque neste museu.
Percebi que o contexto rural, para além de ser naturalmente diferente da vida costeira, tem uma cultura muito própria onde também encontramos ícones da identidade basca.
Na minha busca sobre que elementos inserir na viagem e falando com um dos donos de um dos hotéis que hoje em dia visito com regularidade, percebi que na história recente da região há um antes e um depois da existência do Guggenheim em Bilbao.
Assim sendo ficou claro que teria de incluir uma visita a Bilbao e ao Guggenheim mas depois desta conversa fiquei ainda com mais curiosidade e razões para o fazer.
E como se vive este sentimento de ser basco do lado francês?
Nada melhor do que perguntar a quem lá nasceu e que agora vive do lado espanhol. A resposta é surpreendente e leva-nos a tempos da Guerra Civil espanhola de 36/39 mas será motivo de um texto próprio.
Com uma passagem pela zona costeira, uma visita à zona rural, uma experiência do lado francês, algum tempo passado em Bilbao terminando com uma visita ao Guggenheim já tinha a fórmula quase completa.
Naturalmente que muito fica de fora e muito, mas mesmo muito fica por ver mas já é abordagem mínima a esta região de modo a que se leve alguma ideia desta cultura milenar.
Estando definida a fórmula para produzir a viagem ao País Basco, faltava estudar e preencher os dias de forma consistente e essa tem sido uma longa e fabulosa vivência que irei contar noutros textos.
Para já convido a quem tenha interesse sobre esta zona a procurar alguma informação na internet que em breve irei descrever os vários as várias zonas que decidi entrarem neste tour e porquê.
Bem hajam,
David Monteiro