sábado, 28 de janeiro de 2017

Amesterdão e os seus canais, Holanda

As paralelas que se encontram no infinito têm um significado especial em Amesterdão.

Caminhei em Amesterdão como qualquer turista, horas a fio para cá e para lá. Nos vários dias que aqui estive ainda juntei a demorada visita a um par de museus para ver algumas pinturas que sempre povoaram o meu imaginário.
Sem qualquer originalidade, fiquei deslumbrado com o mar de bicicletas também pensei “estes tipos fazem tudo de bicicleta” e tirei um incontável número de fotografias incluindo ciclistas nas mais diversas situações … sim sim, daquelas em que os locais levam duas ou três crianças a reboque ou à frente.
No primeiro dia, ao chegar ao hotel batelão após muitas horas a andar, vi as fotografias e tive uma sensação de enjoo tão grande que me apeteceu apagar a pasta completa mas acabei por não ter assim tanta coragem.
Não me aborrece tirar fotografias cliché desde que, no mínimo, me pareçam apelativas esteticamente. O problema é que estas fotografias estavam razoáveis e por si só isso é um problema, tal como a água morna … não impacta.
No dia seguinte continuava entusiasmado com a cidade e o apelo a disparar não tinha diminuído mas senti que faltava alguma coisa.
Adorava ter daqueles "cliques" que ouvimos outros a dizerem que têm mas isso também não aconteceu.
Após um par de voltas sem melhoras foi um excelente momento para parar e ver a cidade de um ponto mais elevado, neste caso desde uma cafetaria que se encontra no terraço de um dos poucos prédios altos da cidade. A mudança de perspectiva começou a dar frutos.
Ao rever as fotografias vi que o problema não estava tanto nas fotografias que as considerei decentes, mas sim na falta de tema ou de fio condutor e por isso tudo me parecia sem ângulo nem alma.
O que se passava? Considerando que Amesterdão é uma cidade com a qual me identifico muito, tenho ali vários amigos e nessa altura ainda tive oportunidade de revisitar uma amiga de longa data, a Paula que me deu a conhecer o Hélder, o seu marido, com quem imediatamente senti uma imensa afinidade. O que se passava?
Afinal as fotografias que tirava tinham algum fio condutor que eu não conseguia identificar. Esta sensação indefinida dizia-me que de forma inconsciente havia um tema que me atraia.
Foi necessário algum distanciamento e uma mudança de perspectiva para voltar a ver as fotografias e perceber o que captou o meu olhar de forma espontânea: as linhas paralelas dos canais que convergem para um ponto de fuga e que o olhar detectou automaticamente.
Se esta tranquilidade que a simetria me deu agarrou a minha atenção de forma tão subliminar, ao cair do dia este bem estar transformou-se numa necessidade com o acender das luzes que em cada margem vincam as arestas destes canais dando corpo à ideia que as paralelas encontram-se no (in)finito.
David Monteiro