terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Caminhada na encosta do vulcão até Cova, Santo Antão, Cabo Verde

A caminhada que passa por Cova, em Santo Antão, é uma das mais procuradas na ilha.

À medida que o táxi ia-se aproximando do Paúl, eu ia compreendendo melhor a razão que levava os locais a dizerem que o percurso Cova/Paúl se deve fazer descendo e não subindo como eu queria fazer. À minha frente ia-se revelando a subida de 750m de desnível acumulado que teríamos que enfrentar ao longo da manhã que parecia simultaneamente desafiante e demorada.
O nosso motorista, Neu, perguntou-nos uma última vez em tom de gozo se tínhamos a certeza que era isso mesmo que queríamos fazer e, face à nossa resposta positiva, com um tom algo jocoso disse “é capaz de ser difícil”.
A vida agitada deste motorista que também faz criação de porcos, galinhas e peixes de aquário, não passava por ser guia de caminhadas, profissão não o atraia nada e, tal como ele dizia, esse não era um trabalho para ele que sonhava em ter um talho em Porto Novo.
Antes desta viagem tive oportunidade de estudar estes trilhos e já sabia que o caminho é um imenso empedrado, empinado ao longo da encosta vulcânica até à cratera a que dão o nome de Cova e que é uma zona de cultivo muito fértil devido à humidade que aí se acumula, provocada pelo estacionamento das nuvens que fazem a mesma ascensão que fazíamos durante a manhã. Ligando Cova ao Paúl de forma direta ainda assim não é caminho que se escolha por causa da dificuldade que sua inclinação representa.
Sendo difícil como se apresenta, é normal que ao longo do caminho tenham sido raros os companheiros de jornada. Tivemos como companheiros um par de moços que nos ultrapassaram, em que um deles ia montado num burro que não parecia importar-se com a tarefa, e um casal de jovens que subiam alegremente entretidos nas suas brincadeiras e em grande e identificável cumplicidade.
No entanto, no sentido descendente lá iam aparecendo grupos numerosos de caminhantes liderados por guias locais, a julgar pela aparência.
Este empedrado em que subimos oferece muitas oportunidades de fotografia paisagística mas que na altura estava altamente comprometida e limitada pela neblina que a partir de certa hora ascendia em grande velocidade cobrindo tudo o que a vista queira alcançar.
Nesta embriaguez de pensamentos, a minha cabeça imediatamente começa a imaginar o esforço que foi necessário para dar corpo a esta imensa obra num país com tão poucos recursos como este. Foi seguramente a custo de força braçal de muitos cabo-verdianos e de esforço de muitos burros que por aqui fazem as cargas para os locais menos acessíveis.
Mas há aqui um recurso abundante e chama-se: tempo. É um recurso precioso de que carecem as coisas boas da vida e havendo esta abundância, não há pressa para quase nada tal como também não houve para construir este trajeto.
Este caminho, com estas pedras ou outras, era um dos locais onde no tempo dos meus pais e tios se criavam os mitos de valentia sobre quem até aqui subia.
Fugindo destes raciocínio volto à Terra e adianto-me à minha companheira de jornada para melhor captar outras perspetivas com a minha câmara e dela imediatamente recebo o olhar de misto arrependimento de estar a subir esta encosta mas também com o gozo de o estar a fazer isto mesmo e vivenciar este momento inesquecível
Reparo entretanto que somos alcançados pelo mar de nuvens que nos perseguiam de baixo para cima. Fomos apanhados mesmo ao entrar pela porta que dá aceso a Cova.
Ultrapassando esta porta ficou ultrapassado o nosso primeiro obstáculo do dia e às nossas costas vai-se compondo um cenário de nuvens com um ar dramático e à nossa frente temos Cova com o seu manto verde de culturas.
Já o apetite vai dominando o raciocínio e os meus pensamentos começam a fixar-se no almoço mas isso já é tema de outro post.
David Monteiro

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