Avançar para o conteúdo principal

Caminhada na encosta do vulcão até Cova, Santo Antão, Cabo Verde

A caminhada que passa por Cova, em Santo Antão, é uma das mais procuradas na ilha.

À medida que o táxi ia-se aproximando do Paúl, eu ia compreendendo melhor a razão que levava os locais a dizerem que o percurso Cova/Paúl se deve fazer descendo e não subindo como eu queria fazer. À minha frente ia-se revelando a subida de 750m de desnível acumulado que teríamos que enfrentar ao longo da manhã que parecia simultaneamente desafiante e demorada.
O nosso motorista, Neu, perguntou-nos uma última vez em tom de gozo se tínhamos a certeza que era isso mesmo que queríamos fazer e, face à nossa resposta positiva, com um tom algo jocoso disse “é capaz de ser difícil”.
A vida agitada deste motorista que também faz criação de porcos, galinhas e peixes de aquário, não passava por ser guia de caminhadas, profissão não o atraia nada e, tal como ele dizia, esse não era um trabalho para ele que sonhava em ter um talho em Porto Novo.
Antes desta viagem tive oportunidade de estudar estes trilhos e já sabia que o caminho é um imenso empedrado, empinado ao longo da encosta vulcânica até à cratera a que dão o nome de Cova e que é uma zona de cultivo muito fértil devido à humidade que aí se acumula, provocada pelo estacionamento das nuvens que fazem a mesma ascensão que fazíamos durante a manhã. Ligando Cova ao Paúl de forma direta ainda assim não é caminho que se escolha por causa da dificuldade que sua inclinação representa.
Sendo difícil como se apresenta, é normal que ao longo do caminho tenham sido raros os companheiros de jornada. Tivemos como companheiros um par de moços que nos ultrapassaram, em que um deles ia montado num burro que não parecia importar-se com a tarefa, e um casal de jovens que subiam alegremente entretidos nas suas brincadeiras e em grande e identificável cumplicidade.
No entanto, no sentido descendente lá iam aparecendo grupos numerosos de caminhantes liderados por guias locais, a julgar pela aparência.
Este empedrado em que subimos oferece muitas oportunidades de fotografia paisagística mas que na altura estava altamente comprometida e limitada pela neblina que a partir de certa hora ascendia em grande velocidade cobrindo tudo o que a vista queira alcançar.
Nesta embriaguez de pensamentos, a minha cabeça imediatamente começa a imaginar o esforço que foi necessário para dar corpo a esta imensa obra num país com tão poucos recursos como este. Foi seguramente a custo de força braçal de muitos cabo-verdianos e de esforço de muitos burros que por aqui fazem as cargas para os locais menos acessíveis.
Mas há aqui um recurso abundante e chama-se: tempo. É um recurso precioso de que carecem as coisas boas da vida e havendo esta abundância, não há pressa para quase nada tal como também não houve para construir este trajeto.
Este caminho, com estas pedras ou outras, era um dos locais onde no tempo dos meus pais e tios se criavam os mitos de valentia sobre quem até aqui subia.
Fugindo destes raciocínio volto à Terra e adianto-me à minha companheira de jornada para melhor captar outras perspetivas com a minha câmara e dela imediatamente recebo o olhar de misto arrependimento de estar a subir esta encosta mas também com o gozo de o estar a fazer isto mesmo e vivenciar este momento inesquecível
Reparo entretanto que somos alcançados pelo mar de nuvens que nos perseguiam de baixo para cima. Fomos apanhados mesmo ao entrar pela porta que dá aceso a Cova.
Ultrapassando esta porta ficou ultrapassado o nosso primeiro obstáculo do dia e às nossas costas vai-se compondo um cenário de nuvens com um ar dramático e à nossa frente temos Cova com o seu manto verde de culturas.
Já o apetite vai dominando o raciocínio e os meus pensamentos começam a fixar-se no almoço mas isso já é tema de outro post.
David Monteiro

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Cascata da Ribeira Grande, Ilha das Flores, Portugal

De Santa Cruz das Flores para a Fajã Grande, uma imensa cascata, a Cascata da Ribeira Grande. Estava na Ilhas das Flores, Açores, de férias e, ao contrário do resto do ano, não queria caminhar nem fazer qualquer tipo de atividade física. Queria usufruir do local dado que atividade física já a tenho durante o resto do ano. Mas há dois dias que chovia torrencialmente e fazia um mau tempo muito caraterístico da tipologia de surpresas que os Açores nos pode oferecer. O tempo estava tão mau que as ligações de e para as Flores foram cortadas e ficámos sem poder ir passar uns quantos dias à ilha do Corvo. Também caraterístico dos Açores é a rapidez com que tudo muda pelo que de repente o sol apareceu como se nada tivesse acontecido e toda a vida seguiu em frente, mas a revisita à ilha do Corvo acabou por ter que ficar para outra altura já que era tempo de seguir para o destino seguinte, a Fajã Grande.
No caminho de Santa Cruz das Flores para a Fajã Grande houve algo que nos interrompeu a vi…

Estátua do Neptuno passeando-se em Lisboa

De repente percebo que a estátua do Neptuno passeou-se mais em Lisboa do que eu imaginava.O início desta história nada tem a ver com o final e menos ainda com o meio por isso vamos lá começar a pôr ordem na casa. Início da históriaHá uns dias uma amiga publicou numa rede social uma fotografia da estátua do Neptuno que está no Largo D. Estefânia. Ao ver a fotografia que foi amavelmente feito com um telemóvel percebi que a dita não podia fazer justiça à beleza da estátua que foi recentemente recuperada. Ainda assim, deu para perceber que finalmente a fonte estava novamente iluminada após um largo período de recuperação. Antes que possa ser vandalizada e enquanto está limpa é a altura perfeita para tirar um par de retratos. Claro que também foi um excelente motivo de convívio com um amigo fotógrafo que aceitou o desafio de imediato e fez o favor de me acompanhar na tarefa. Após lanchar e esperar um pouco para que o cair do dia se fizesse anunciar, começamos a montar o equipamento e num ápice…

2017 07 01 - Trekking no Parque Nacional de Aigüestortes

Trekking no Parque Nacional de Aigüestortes (Carros de Foc) , Pirenéus, Espanha Carros de Foc, um dos mais espetaculares percursos de trekking dos Pirenéus, com cerca de 200 lagos e cumes que rondam os 3000m de altutide e, ainda assim, de dificuldade moderada.
Partida: 1 de Julho, 2017 - Chegada: 7 de Julho, 2017 Data limite de inscrição: 15 de Maio de 2017
Local de partida e chegada: Barcelona, Espanha O Parque Nacional de Aigüestortes O Parque Nacional de Aigüestortes localiza-se na zona central dos Pirenéus e é o único Parque Nacional situado na Catalunha dividindo o seu território entre as comarcas de Vall d’Aran, Pallars Sobirá, Alta Ribagorça e Pallars Jussà, cerca de 200km’s a oeste de Andorra.
Criado em 1955 cobre hoje em dia uma área de aproximadamente 40.000 hectares considerando as zonas periféricas protegidas e é um espaço natural de extrema beleza em que os elementos água e granito aparecem no seu máximo esplendor em combinações surpreendentes.
Com uma elevada concentração de …