quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Subir o Pico com ou sem guia?

A resposta a esta pergunta é capaz de não agradar a muitos caminheiros.

Para qualquer português/portuguesa praticante de caminhada, montanhismo ou algo do género, chega sempre o momento em que pensa subir o Pico, é inevitável.
Esta imensa montanha que dá nome à ilha, também domina a paisagem das ilhas a seu redor quer seja de São Jorge e Faial como também da mais longínqua Graciosa. Naturalmente que estou a referir a vista que temos dos ângulos onde se encara o Pico desde as referidas ilhas.
Vi pela primeira vez o Pico em 1987 quando cumpria o serviço militar na Armada Portuguesa e aproximava-me da ilha a bordo da fragata NRP João Belo.
De longe, ao ver uma ilha que flutuava num mar de nuvens não conseguia compreender o que se passava. Há que lembrar que nessa altura ainda não havia o acesso que temos hoje em dia a informação sobre os locais para onde vamos, ou seja não havia Google onde ver fotografias, ler críticas e ver fotos sobre o Pico e a sua montanha, o recurso a bibliografia era mais difícil e todo o processo de consulta era muito mais lento e demorado.
A ilha parece que flutua porque o manto de nuvens que ali estaciona não é tão alto como a montanha e esta sobressai ficando como que flutuasse. É uma imagem que não se esquece.
“Adorava ir lá acima” foi o que pensei na altura mas que tardou mais de 20 anos a cumprir.
Quando desejei subir o Pico já praticava algumas atividades de montanha mas enquanto passavam as mais de duas décadas, angariei muita experiência que foi complementada com um leque de formações específicas e relevantes de forma sistemática.
Liderei várias ascensões de sucesso ao Pico e durante esses momentos tive oportunidade de falar com muitos guias locais, e não só, sobre o “comportamento” da montanha, sobre a quantidade de gente que sobe a montanha e sobre o quanto a maioria das pessoas que fazem esta ascensão estão ou não preparadas para reagir aos potenciais problemas que aqui podem ocorrer.
É normal que o leitor pense “é lógico que este gajo venha aqui defender a contratação destes serviços”. Se pensa isso engana-se e até considero esse raciocínio como falta de imaginação, seria uma resposta fácil demais.
Com o aparecimento e disseminação do uso dos aparelhos de GPS e smartphones com essas capacidades, qualquer caminheiro iniciante rapidamente é induzido, por esta potencial mas aparente facilidade, a fazer o que talvez não esteja preparado que é começar a aventurar-se para estes locais sem apoio de alguém mais experiente sendo guia ou algum caminheiro com mais formação.
Tudo toma uma dimensão ainda mais gravosa quando o dito inexperiente começa a arrastar consigo outros ainda menos experientes.
A ascensão ao Pico, ou mais propriamente ao Piquinho, em relação a um(a) caminheiro(a) algo experiente não apresenta dificuldade de maior enquanto o estado do tempo for favorável. Aliás, o(a) caminheiro(a) encontrará apoio na Casa da Montanha (*) e marcas no caminho que facilitam a ascensão.
Porém, quando o nevoeiro se abate sobre a montanha tudo pode mudar de figura. As marcas de regresso deixam de estar visíveis e há zonas em que a dispersão de trilhos podem levar a zonas com risco potencial.
Qualquer grupo que vai iniciar a subida ao Pico (*) é convidado a passar pela Casa da Montanha onde é registado e munido de um rádio/GPS que comunica com uma central para monitorização dos grupos que fazem a ascensão e, tal como referido, ao longo do caminho há um conjunto de pequenos postes de sinalização do trilho até à base do vulcão.
Agora peço que pensem comigo: esta estrutura de apoio aos caminheiros não tem paralelo em Portugal e não sendo os portugueses de deitar fora os seus parcos recursos então é porque há uma grande razão para haver toda esta estrutura disponível, é porque há riscos potenciais e não são facilmente detectáveis na ascensão ao Pico.
Pois é, o Pico acorda descoberto mas frequentemente ao final da manhã cobre-se com as nuvens que dão o aspecto tão característico que se vê desde o mar ou de outras ilhas mas que estando ali dentro não se vê um palmo à frente do nariz, ou melhor dizendo, só se vê uns poucos metros à nossa frente.
Vale a pena poupar uns trocos não pagando a um guia/empresa e por isso pôr em risco o bem estar dos que nos acompanham e daqueles que mais tarde poderão ter que ir em nossa ajuda?
Não tenho resposta para si porque só dependerá da sua consciência.
Isto é um apelo a que visite a fabulosa ilha do Pico e a sua majestosa montanha mas em segurança, invista na sua própria formação, conheça melhor as suas capacidades e decida de forma capaz.
David Monteiro
(*) Link importante com informação oficial sobre a Casa da Montanha e Regulamento de Subida à Montanha
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