terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Salada de batata em Santo Antão, Cabo Verde

Salada de batata em Santo Antão, Cabo Verde

Como encaixamos uma salada de batata numa caminhada em Santo Antão?

Depois de ultrapassar os 750m de desnível que nos separavam de Cabo de Ribeira (Paúl), estávamos em Cova, a cratera de um antigo vulcão que estará extinto há mais anos do que aqueles que saberei referir.
Foi uma valente caminhada, exigente mas que ainda assim me deixou disponibilidade mental para apreciar a paisagem na subida, sempre fugindo de um nevoeiro que nos perseguiu encosta acima por esse caminho serpenteado.
Já na caldeira, circundámos a cratera pela direita vendo ainda mais abaixo os orgulhosos verdes campos de cultivo de milho e outros produtos. Às nossas costas afastava-se o portal que cruzámos para deixar a ascensão e por onde entretanto apareceram as nuvens que nasceram da névoa que nos perseguiu ao longo da subida.
Essa neblina ganhou muitas tonalidades de cinzento que contrastavam com o céu azul. Naturalmente relacionei esta neblina com o verde da cratera e rapidamente fica descoberto o mistério da exuberância que aqui dominava.
Não sendo uma subida extenuante, ainda assim foi o suficiente para me dar uma imensa tranquilidade e ajudar ao disfrute das pequenas coisas como seja a beleza paisagística das montanhas abrutas à nossa volta ou apreciar o modo de vida de quem aqui trabalha arduamente.
O estômago não tarda a lembrar-nos da sua existência e de que desde o pequeno-almoço não via alimento.
Tinham-me falado de um bar/restaurante por estas bandas mas que ninguém conseguia garantir que estivesse aberto.
Não foi difícil encontra-lo e, se a simpatia saciasse a fome como a alma nada mais teríamos almoçado. Porém, tudo isto é muito bonito mas haveria que satisfazer as necessidades terrenas.
A escolha não existia pelo que pedimos o que havia: uma salada com batatas de sequeiro e tomate e outro prato com salada de queijo de cabra.
Olhei de viés para as batatas sem grande vontade mas com fome. Não gosto de batatas mas lá teria que ser.
Nunca pensei que algum dia poderia fazer uma crítica positiva a batatas cozidas mas na verdade foi uma das refeições mais memoráveis da minha vida.
Foi bem temperado pela fome?
Não digo que não. Mas se sim, então aconselho a que da mesma forma o façam caminhando antes de aqui comerem mas creio que não é o caso, as batatas eram de elevadíssima qualidade, cozidas na perfeição, o tempero de azeite, orégãos e alho estava divinal e, para fazer jus a tal iguaria as batatas acompanhavam-se com tomate cujo sabor parecia concentrado.
Não esperava que na zona se cultivasse tomate, habituado que estou a tomate da Península Ibérica e menos preparado ainda estava para encontrar-me com tão bons frutos aqui plantados.
Fica a sugestão para quem por essas zonas ande e a certeza que não será a ultima vez que visitarei tal local só esperando que possa repetir a iguaria.
David Monteiro