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Mensagens

Refúgio Saboredo, Aigüestortes, Espanha

Encontrar uma cerveja a meio da montanha é como um sonho. Não há quem faça trajetos de montanha que, atravessando uma montanha num dia de calor, não tenha dito “o que vinha agora a calhar era uma cerveja”. Se não disse é porque não gosta de cerveja e então é compreensível. Acontece porém que, se tudo corre normalmente, esse desejado local para beber o néctar simplesmente não existe. Procuramos o isolamento que a montanha nos dá mas ao mesmo tempo o que queremos é uma esplanada com uma bela cervejola … e se houver uns petiscos para acompanhar tanto melhor, é a festa completa. Conhecendo o género humano português sei que ao ler isto uns quantos já estão a pensar contrariar este raciocínio … “eu quero um chá” … pois seja um chá que não fará qualquer diferença para o raciocínio em questão. Se não levarem o chá ou a cerveja, dificilmente encontrarão um “chiriguito” onde o/a dito e a palavra dificilmente não foi escrita ao acaso. Quando caminhamos do Refúgio de Amitges para o Refúgio de Co…

Caminhar nos açudes do rio Alva, Portugal

Há uns anos liderei um conjunto de caminhadas em atravessavam os açudes do rio Alva. Não sei quantos açudes terá o rio e nem é esse o objetivo neste momento. O certo é que estas estruturas sempre me fascinaram pela sua força constante e pela sua presença não impeditiva que a água corra mas ao mesmo tempo criando uma acumulação e concentração de vida por abrandar a sua fluência. Os percursos foram desenhados para cruzar o rio várias vezes caminhando em cima das represas pelo que o grande desafio foi conjugar a meteorologia o mais favorável possível com o caudal do rio Alva suficientemente forte para ter alguma massa de água que fosse interessante mas, ainda assim, que se deixasse cruzar sem que a água arrastasse os caminhantes enquanto estes caminhavam em cima dos açudes. Os grupos de caminhantes eram constituídos sempre aceitando esperar pela melhor altura para ir fazer o percurso pedestre. Também há a considerar que essa “avaliação” era empírica e feita desde Lisboa mas com base na …

Caminhada na encosta do vulcão até Cova, Santo Antão, Cabo Verde

A caminhada que passa por Cova, em Santo Antão, é uma das mais procuradas na ilha. À medida que o táxi ia-se aproximando do Paúl, eu ia compreendendo melhor a razão que levava os locais a dizerem que o percurso Cova/Paúl se deve fazer descendo e não subindo como eu queria fazer. À minha frente ia-se revelando a subida de 750m de desnível acumulado que teríamos que enfrentar ao longo da manhã que parecia simultaneamente desafiante e demorada. O nosso motorista, Neu, perguntou-nos uma última vez em tom de gozo se tínhamos a certeza que era isso mesmo que queríamos fazer e, face à nossa resposta positiva, com um tom algo jocoso disse “é capaz de ser difícil”. A vida agitada deste motorista que também faz criação de porcos, galinhas e peixes de aquário, não passava por ser guia de caminhadas, profissão não o atraia nada e, tal como ele dizia, esse não era um trabalho para ele que sonhava em ter um talho em Porto Novo. Antes desta viagem tive oportunidade de estudar estes trilhos e já sab…

Via ferrata Les Baumes Corcades, Espanha

Classificada como K4, num máximo de K6 na Escala de Hüsler, ou seja Difícil, esta via ferrata localiza-se perto de Centelles, província de Barcelona, Espanha.
É uma via ferrata sobejamente conhecida pela sua ponte tirolesa/himalaia de cabos paralelos com 68m de comprido a cerca de 25m de altura, para além de outros obstáculos muito interessantes tal como alguns passos subprumados - palavra utilizada na gíria da escalada mas que não se encontra no dicionário da língua portuguesa e que se refere a uma parede com inclinação que se assemelha a um teto, ou quase. A certo dia eu liderava a atividade onde levava dois escaladores comigo. Os dois escaladores eram pouco experientes e sabia que teria que montar segurança de top-rope em alguns locais. Sabia também que um dos escaladores iria optar por contornar os obstáculos mais difíceis por se sentir pouco à vontade nessas situações. O dia seguia com a sua excitação e adrenalina próprias. O pequeno grupo estava delirante e tudo corria muito bem com…

(Re)Andar de bicicleta

Andar de bicicleta dá-me uma imensa sessão de liberdade. Não duvido que o mesmo possa acontecer com outras actividades para outras pessoas mas para mim quando ando de bicicleta é quando sinto esta sensação de forma mais vincada. Tal como tantas outras pessoas, quando era miúdo andava imenso de bicicleta mas por qualquer motivo que não consigo perceber deixei de o fazer.
Passei muitos anos sem andar de bicicleta até que há uns dez anos, por insistência do meu amigo Zé Gil, acabei por voltar a pegar numa e nunca mais consegui afastar-me muito tempo de uma bicicleta. Como qualquer (re)iniciado, a princípio andava pouco tempo, fazia distâncias muito curtas mas tinha muito prazer nisso. Naturalmente as ditas voltinhas começaram a ser mais longas, para locais mais interessantes e o desnível ia deixando de ser um entravo. Claro que experimentei várias “modalidades”, claro que ao praticar BTT caí até e aleijei-me ao ponto de pensar que talvez esta não fosse uma actividade para mim. Afinal de …

Caminhar De Fuenterrabia a San Sebastian, Espanha

A caminhada de San Sebastian/Donostia a Hondarribia é, seguramente, uma das mais espectaculares que podemos encontrar na região. Olhei para o mapa e vi que San Sebastian fica a uns 20 ou 30Km da fronteira Espanha/França sempre pela costa e, vendo mais ao pormenor, consegui definir trilhos e de imediato acendeu-se uma luz na minha cabeça … “isto tem pernas para andar, pode dar uma caminhada muito  interessante”. De facto, quando estamos na zona das encostas perto da cidade temos uma visão muito ampla do Golfo da Biscaia abrangendo território espanhol e francês. Assim sendo, e com a intenção de adicionar um dos dias de caminhada à viagem ao País Basco (1), fui testar o trilho entre Hondarribia e San Sebastian. O percurso provou-se ainda mais interessante do que esperava e depois de algumas correcções acabei por ter 27Km de caminhada mas que pode ter versões mais curtas, exactamente como eu gosto (2). Inicialmente encontrei um percurso marcado que se apresenta um pouco mais longo e com …

Relaxando em São Jorge e contemplando o Pico

É fim do dia e acabei a minha sessão de alongamentos após um belo dia de caminhada em São Jorge, o paraíso açoriano para caminhantes, e daqui contemplo o Pico. Ouvia uma música enquanto me esticava. Já a tinha preparado para este momento de descompressão. Relaxo, calam-se as vozes da minha cabeça, instala-se o silêncio que agora é preenchido pela melodia e deixo-me levar na onda. No fim da sessão sinto uma leve sonolência que não me adormece mas me mantém a pairar a um palmo do chão. Usufruindo desta sensação deslizo até ao sofá onde me espera o meu sábio e silencioso amigo tinto. Confraternizo com este amigo enquanto o seu curto futuro assim permite e entretanto vou contemplando o Pico e aproveitando do que resta deste dia de sol. Já não oiço a música, só mesmo a minha respiração e o insistente bater do coração que agora bate mais espaçado. Há coisas boas na vida. Bem-hajam, David Monteiro

Artigo original Nota: a fotografia foi tirada nas instalações da Quinta de São Pedro